[Entrevista] Diretor César Baptista e a atriz Isabella Lemos falam sobre o espetáculo “Push Up” em cartaz até 18 de dezembro

[Entrevista] Diretor César Baptista e a atriz Isabella Lemos falam sobre o espetáculo “Push Up” em cartaz até 18 de dezembro

Em entrevista ao portal O Beijo revelam que a peça discute sobre um mundo cada vez mais individualista e adoecido dentro de um ambiente corporativo.

O portal “O Beijo” fez sete perguntas para o diretor César Baptista e atriz Isabella Lemos sobre o espetáculo “Push Up”, de Roland Schmmelpfennig, em cartaz até 18 de dezembro no Viga Espaço Cênico. A peça trata de pessoas que trabalham no mundo corporativo e que, ao dedicar seu tempo a essa grande empresa, parecem não escapar do pêndulo entre os campos profissional e privado.

Confira a entrevista:   

 

O Beijo: O espetáculo “Push Up”, que segue em temporada no Viga Espaço Cênico até 18 de dezembro fala sobre o mundo corporativo. Quais foram as pesquisas auxiliares para a concepção do espetáculo? O texto já trouxe o instrumental necessário?

César Baptista: Eu, como diretor, sempre busco não trazer um instrumental de fora para analisar um texto. Aprendi com o Antunes Filho (com quem trabalhei durante seis anos como assistente de direção e ator) que o artista deve extrair o instrumental de análise da própria obra. De outro modo, Bakhtin fala a mesma coisa. Então, a primeira coisa que faço com os atores é ler o texto sem colocar qualquer intenção ou desejo de interpretar. Antes disso, é preciso fundamentalmente entender o texto. Ler e entender o que o texto está dizendo, desvelar camadas, é como um trabalho arqueológico. Na medida em que nosso entendimento se verticaliza, a possiblidade de fazer um trabalho pertinente com o “coração da obra” aumenta. Nesse horizonte, é que as referências começam a aparecer, nunca antes: então, percebemos um eco longínquo dos dramas sociais da dramaturgia alemã do século XX, as referenciais visuais em “Metrópolis”, de Fritz Lang, e “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin. E ainda alguns textos da psicologia social de Freud nos ajudaram a entender por que adoecemos quando nossas instâncias psíquicas são bombardeadas por uma lógica que as asfixia.

 

O Beijo: Quais são os paralelos entre a profissão de Atriz e a estrutura de uma empresa? Antes de ser atriz, trabalhou em alguma empresa? Essa experiência ajudou na construção do espetáculo?

Isabella Lemos: A vida empresarial e a vida no mundo artístico exigem muita disciplina, conhecimentos específicos e vocação. Assim como no mundo corporativo, no mundo das artes também existe uma competição acirrada e um mercado que exige cada vez mais profissionais altamente qualificados. Mas no mundo artístico nos é dada a missão de pensar e refletir o mundo em que vivemos e que de alguma maneira, através da linguagem da arte, possamos provocar e despertar o público para que ele também pense e reflita o mundo através de perspectivas diferentes.

 

O Beijo: Como é a visão de um autor alemão sobre o tema e quais as intersecções com a visão brasileira? O mundo corporativo é igual em todos os cantos do planeta?

César Baptista: Ao fazer o trabalho de entendimento de texto, debatíamos muito isso: de que um autor alemão não enxerga o mesmo mundo que o seu, por exemplo. Ao passo que avançávamos na compreensão do que o texto dizia, percebíamos que um dos méritos do autor era usar o mundo corporativo como uma grande metáfora do mundo. Ele fala de um microcosmo que é uma alusão à nossa sociedade, o macrocosmo, portanto. Infelizmente, por um lado, mesmo que haja pequenas nuances e não dê para generalizar, arrisco a dizer que o chamado mundo corporativo, ou, como costumo dizer, “a lógica de mercado” acaba por formatar a todos, engaiolando qualquer possibilidade de expressão de singularidade, porque não visa desenvolver o ser humano naquilo que ele tem de humanidade, mas sim naquilo que ele tem de selvagem. E a contradição aparece aí: da mesma forma que a lógica do mercado desperta esse aspecto selvagem, que eu conecto à libido, as pessoas acabam deslocando essa libido do seu lugar de expressão, se tornando embotadas, doentes psiquicamente.

 

O Beijo: Os dramas pessoais dos personagens interferem na estrutura da empresa ou são questões que constituem todos os seres humanos? Como a busca por sucesso pode contribuir ou atrapalhar os personagens?

Isabella Lemos: A peça de Roland Schmmelpfennig é uma crítica a estrutura capitalista dentro de um modelo que os dramas empresariais e a ambição profissional dos personagens interferem muito mais nas suas vidas pessoais, do que suas vidas pessoais interferem na estrutura da empresa. O sucesso profissional acaba sendo o foco da vida de muitas pessoas dentro dessa estrutura já formada antes mesmo delas nascerem. A peça fala de um modelo de vida instaurado na nossa sociedade e nos convida a reflexão crítica profunda sobre esse modelo. A busca cega pelo sucesso profissional traz perdas pessoais incalculáveis na vida das pessoas.

 

O Beijo: Quais são os principais temas de discussão do espetáculo que as pessoas poderão levar como reflexão para suas vidas?

César Baptista: O teatro pode ser um fenômeno em diapasão com a vida, em consonância com o mundo atual e o ser humano contemporâneo, por um lado. Por outro, ele pode reinventar o mundo, criando novas perspectivas de encarar os mesmo problemas. Nesse contexto, é que é possível entender a obra de Roland Schimmelpfennig. Esse autor tem se destacado como o dramaturgo alemão contemporâneo mais montado no mundo nos últimos anos, fora da Alemanha. PUSH UP tem uma dinâmica que vai do absurdo de uma situação, que começa realista e depois degringola com humor e ironia, a colagens e formas textuais híbridas. Essa forma dá a possiblidade de brincar não só com o conceito espaço-tempo (flashbacks e simultaneidade), como também abre um leque temático: os jogos de poder, a sedução, a ambição desmedida, a falsa humildade, a inveja do sucesso alheio, a relação entre o público e o privado, a competição no mercado de trabalho, a desvalorização do profissional e a precariedade da condição humana. Fundamentalmente, precisamos entender que tratar o sujeito como propriedade educa nossa subjetividade de uma maneira a embota-la e, com isso, limitar nossa capacidade de expressar afeto. Nesse contexto inóspito, a lógica do trabalho pode ao mesmo tempo enaltecer e rebaixar a condição humana.

 

O Beijo: Grupos de empresas já foram assistir à peça? Como foi a receptividade?

Isabella Lemos: Pessoas que trabalham no mundo corporativo tem dado respostas bastante positivas e animadoras depois que assistem ao espetáculo, pois além de reconhecerem essas personagens e esse universo no qual o autor mergulha, muitos saem nos questionando se o autor veio do mundo corporativo. Isso se deve à extrema habilidade dramatúrgica do autor de evidenciar a selvageria do mundo capitalista que se apresenta com uma máscara de civilização e também ao mesmo tempo pela capacidade de desnudar essa máscara social.

 

O Beijo: O que o público pode esperar ao assistir ao espetáculo? Quais os principais pontos de atenção?

Isabella Lemos: A peça revela que estamos vivendo num mundo adoecido e individualista, nos faz questionar se podemos colocar em prática em pequenas atitudes no nosso cotidiano algo que nos faça olhar para as nossas próprias vidas e as vidas dos que nos cercam com mais amor e humanidade. Todos sairiam ganhando mais, inclusive, profissionalmente.

 

Foto: Felipe Souza.

 

Ficha Técnica

Texto: Roland Schimmelpfennig.

Direção: César Baptista.

Elenco: Antoniela Canto, Daniel Faleiros Migliano, Fabio Acorsi, Fulvio Filho, Isabella Lemos, João Bourbonnais, Karlla Braga, Monalisa Vasconcelos.

 

Serviço

Local: Viga Espaço Cênico – Rua Capote Valente, 1323 – Pinheiros – São Paulo.

Temporada: Até 18/12. Terças e quartas, 21h.

Ingressos: R$ 50,00

Classificação: Livre.

Informações: (11) 3801-1843.

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