[CONHEÇA] 7 artistas lésbicas para acompanhar:Barbara Esmenia (5/7)

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Existe uma camada ancestral bruxa na lesbiandade. Inquisitoras, desafiaram homens, governos, nações. Do micro ao macro com ervas, plantas, luas. Alho, camomila, hibisco.

Existe ainda uma camada lacuna que de tão rígida não permite que toque a todas. E não é de sexo, pra quem insiste em dizer que é apenas, é não só.

Mesmo sem ter os nomes culturais sociais escritos em pedras e cartórios, são conhecimentos e afetos que se espalham por fumaças, tambores, tintas, arquiteturas, poemas, montanhas, chás, armas, bocas, bucetas, peitos, pelos, cantos, danças, contação de história matriarcais, muiraquitãs e sangue de menstruação.

Com ele nós regamos nossas plantas

***

    BARBARA ESMENIA

 

antes mesmo

• dos deuses gregos

• das leis cristãs

nós

| lado outro do Atlântico |

enterrávamos

sementes

 

seria este um tiro canhão
ao longo de mais de 200 os metros
e alcançando na mira certeira – que é corpo-todo – pralém de mirada só coração
ou mirada-cabeça
pra treinar tiro ao alvo
aprendido escolinha homicida

 

                                           já que na mira corpo-inteiro se mata no idem
o alvo choca
explode
pulula
ferido até a morte
sem-alma
– que é objetivo de tiro canhão né não?

poderia ser
– ainda
tiro bazuca
imenso fuzil enchendo boca de dizer nome
: ba :
: zu :
: ca :
como deslizando em terreno cada bonequinho comandos em ação que nem peguei em infância,
mas observava nas mãos dos meninos

e é pra que esse tanto?
200 metros distantes:
aplausos pelo acerto-mira ou é erro-mira,
ainda que atingido alvo,
posto que fatal?

tantos os quilômetros velozes indo em pressa das mortes
– adiantando destino futuro –
acompanhando ligeiro batida-coração do que vítima
=
é pra quê?

pra vanglória d’um ponto atingido?
as competências estimuladas desd’infâncias?
os videogueimes reais pras vivências?
os tantos filmes-modelos d’ações?

né não?

poderia ainda
,ora só!,
ser escopo em flecha
observar originários indígenas
empunhando os arcos nas miras certeiras
não sei quantos quilômetros segundos
dando nem tempo de caça correr pras entranhas da mata
ou córregos rios

alimentar famílias c’os caçados
esquerdeza
-que não eficaz-se em destreza-
nas astúcias
turbulizando sobreviver

matar que se come que se bebe que se vive se quiser canibaliza se quiser não faz à toas

talvez hipótese essa
mas que existe
,existe,
,ora só!,

é que hipotético não consideram científico
e científico é olhar d’estrangeiro
é o outro como estudado
o assunto das tantas diversas
nunca padrão do que branco
hegemônico
europeu objeto d’estudo
– este sempre qu’em regra –
de suas armas matanças n’história
::
– gravidez forçada

– navios negreiros
– enforcamentos

– guilhotinas
– genocídios
– estupros
– senzalas
– torturas
– fomes
– ruas
::

já que
– cá estamos
a menos de 3 metros-distância
e meu peito aberto se faz alvo acesso aguardando em alerta

– por mais que ferro instaurado em entranhas
nem sempre impede de ferir-me o plexo –

 

***

 

Bárbara Esmenia é poeta e publicou em 2016 seu primeiro livro, {Penetra-Fresta}, pela padê editorial, editora artesanal que tem como foco publicações dissidentes, criada por ela e pela poeta Tatiana Nascimento (DF).

Recentemente lançou seu segundo livro Tribadismo : mas não só – 13 poemas a la fancha + 17 Gritos de Abya Yala, também pela padê.

Atua como curinga de teatro das oprimidas, integrando a Rede Magdalenas Internacional – rede mundial formada por mulheres que praticam TO.

Em sua escrita, Bárbara Esmenia tece narrativas de pertencimento ao se pensar enquanto sujeito em contexto latino-americano a partir das experiências de territorialidade decorrentes da colonização e suas insurgências.

Enquanto mulher lésbica, busca na etimologia das palavras concatenações a travar rupturas linguísticas, bem como outros modos de se estar no mundo e historicizar existências tantas vezes soterradas.

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