[CONHEÇA] 7 artistas lésbicas para acompanhar: Daiane Cristina (3/7)

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Além da imagem as palavras também abrem espaços e apontam caminhos.

Também trazem o conforto de saber que antes de hoje outras haviam e o que diziam. É desse encontro que se prepara no presente o salto para o futuro.

Podem ser escritos de todos os tipos.

As palavras também são possibilidades na construção da subjetividade. São como amigas que acolhem e não julgam. São como lugares para fugir. São propostas, projetos e projeções dos  planos que temos.

Constituem as memórias de meu corpo, de minha história. Meu álibi e as provas dos crimes.

É tudo aquilo que vivo e almejo transformado no sensível, na legislação, no roteiro, na gestão, no diário, na carta, no post, na monografia, na assinatura, no autógrafo, na bandeira, na faixa, no cartaz, na tatuagem, na canção, na receita, na dramaturgia, na poesia.

***

                                                           DAIANE CRISTINA

Àyán

Eu amo uma mulher
Sua voz é ensurdecedora
Troveja quando sorri
Lábios intensos como as curvas do Rio Nilo
Seus olhos fulminam fogo
Seus cabelos são sagrados como a flor do Baobá
Os atabaques curvam-se diante da sua exuberância
A cor da sua pele é a junção de Vênus, Urano e Plutão.
Tem a beleza da Cleópatra e Nefertiti
Corajosa como Sojouner Truth
Rebelde como a Rosa Parks
Eminente como a Nina Simone
É a poesia no lábio bell hooks
Exala a sensualidade da Esperanza Spalding
Ela não avisa, não explica, faz!
É o discurso da Viola Davis e Michelle Obama
Em teu seio habitam os segredos do universo
Ela não se curva como Dandara dos Palmares
Ela é a coluna dorsal da casa
Como Carolina Maria de Jesus
Ela é o grito dos excluídos na voz da Elza Soares
A poesia viceral  de Eliza Lucinda
Ela é o discurso sem saliva de Leci Brandão
Ela é  a carne inexorável da Ellen Oléria
Eu amo uma mulher
E procurar racionalizar esse sentimento
é compreender sobre  os corpos celestes
forças gravitacionais, física quântica
E astrologia e misticismo.
Eu amo uma mulher
Ela põe o dedo na ferida
Ela é eterna, infinita e imensurável
Como Marielle Franco.

Carta de alforria

Amontoadas em um navio

acorrentadas, escorraçadas.

A cada tentativa de fuga,

uma nova sessão de tortura.

A cada estralo do chicote,

O ranger dos dentes.

Aumentam as feridas

Que já não cicatrizam mais,

Meu corpo encontra-se anestesiado

com tanta violação.

As armas que para as nossas cabeças

sempre foram apontadas.

Muitas de nós foram estupradas e mortas.

Não preocuparam com os danos causados,

Venderam-nos como as mais baratas do mercado.

Para manter a sua mão de obra,

Fomos escravizadas dentro das suas senzalas.

O meu leite sustentou os filhos dos senhores,

esses que me causaram dores.

As crianças cresceram fortes e sadias,

Nas minhas costas carreguei fardos pesados,

Sem água e sem descanso.

Após 128 da Lei Áurea,

A história não mudou.

Hoje o capataz trabalha para o estado,

Seus cavalos e carros

Perseguem negras como eu,

Mas se esquecem

que se o Brasil está em pé,

Foi levantado pelas mãos de uma mulher,

Que não se submeteu

e nem se conformou

com a sua condição de criada.

Largamos as suas vassouras

E formamos um batalhão,

Mulheres guerreiras!

Para a nossa rebelião contra esse sistema

Que insiste em nos calar.

Não precisamos das suas armas

Temos negras empoderadas.

O nosso sangue pulsa revolução,

E não tememos não!

A minha pele está protegida por elas,

Tereza de Benguela e Dandara dos Palmares .

Por nossa ancestralidade.

A cada jato de tinta nos muros,

Eternizo as vozes daquelas que vocês silenciaram.

Ahh! Brancos não se iludam.

Não sou só peito!

Não sou só bunda!

Não sou a sua!

Não sou a dele!

O meu corpo não serve para a satisfação dos seus desejos.

Eu mulher negra,periférica

Me revolto e para o seu tronco

EU NÃO VOLTO!

Legenda

 

Eu dona de mim 

Ergui no meu peito
Um templo
Onde só quem é convidado entra
Não se iluda meu bem
Talvez parece desdém
Um amaço e alguns beijos roubados
Não deixa as minhas pernas bambas
Essas paixões repentinas
Não me apetece
Não me apego fácil
Entrego a chave do meu átrio
A quem merece.
Amores líquidos não matam a minha sede
Eu dona de mim
Me reenveitei na minha melhor versão
A pele preta que todos vêem mas poucos tocam
Carrega histórias
Descendo de uma linhagem de Deusas e rainhas
Não é desprezo meu bem
Nada que é pouco me convém
Eu sou muito e sinto também
Que na minha vida não tenha espaço pra nenhum laço.
Livre sim
Eu sou dona de mim.

***

 

Negra, feminista, lésbica e periférica. Iniciante na cena da poesia marginal, tem seus escritos como um refúgio e alívio diante de uma sociedade extremamente machista, racista e lesbofóbica.

Nascida em uma família de militantes de esquerda teve contato ainda na infância com Manual do Guerrilheiro Urbano de Carlos Marighella e raps tocando nas reuniões de família.

Devido fortes influência do pai grafiteiro, desde pequena já acompanhava o grupo blackout de grafite da zona sul em meados dos anos  90.

A poesia tornou-se uma descoberta inexorável e transcendental. Desde então se delicia no universo periférico poético.

 

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