"Somos raízes desse solo"

Coletivo Kinoférico surgiu  do encontro entre jovens  do Projeto de Comunicação Comunitária o bairro do Pimentas (Comcom Pimentas), em Guarulhos. 

Já realizaram diversas produções, ganharam alguns prêmios e foram exibidos dentro e fora do Brasil. 

Nessa entrevista o coletivo comenta sobre sua história, seus filmes, como é produzir em Guarulhos e sobre o que querem mostrar em seus trabalhos. 

Crédito:(Divulgação)

Quem é o coletivo?

R: O coletivo Kinoférico é um desdobramento do Projeto Comcom Pimentas. O primeiro núcleo do coletivo nasceu dos educandos (Almir Paulo, Nelson Simplício, Wesley Gabriel, Wesley Souza) que participaram das oficinas (Jornal, TV, Rádio) de Comunicação Comunitária. Além disso, Nelson, Wesley Gabriel e Wesley Souza também haviam participado de um curso livre de cinema proporcionado pela prefeitura de Guarulhos em 2014.

Aos poucos o Kinoférico vai tomando forma e vê a necessidade em ter mais membros, com isso, a Andréia Marques e o Fábio Santos passam a integrar o grupo. Mas como qualquer coletivo sofre diversas mudanças de componentes no decorrer de sua história.

Hoje a equipe é formada pela Alice Caroline, Fábio Santos, Gabriel Araújo, Nelson Simplício, Wesley Gabriel e Wesley Souza. Cabe lembrar que o coletivo surgiu em 2015 na Região dos Pimentas-Guarulhos (SP), a partir da vontade dos integrantes em contar histórias fílmicas que não sejam as mesmas dos noticiários, no qual o povo periférico é tido como inferior ou criminal, mas sim produzir cinema de qualidade que tenha uma certa identidade com a comunidade.

​Crédito:(Divulgação)

Os filmes AlakazamInorgânico e Busca Vida trazem a questão do meio ambiente como tema e além destes vocês possuem outros filmes. Quais outros assuntos que são tratados por vocês?

R: Busca Vida (dir. Wesley Gabriel) foi o primeiro filme produzido pelo coletivo e traz a questão ambiental muito forte, porque ele foi criado no momento que passávamos pela crise hídrica em São Paulo e com o intuito de participarmos do Concurso da Tela Brasil- Cinemark sobre essa temática.

Inorgânico (dir. Wesley Gabriel), Os R(a)tos (dir. Fábio Santos e Nelson Simplício) e Alakazam (dir. Fábio Santos) que levam o meio ambiente também como foco, foram pensados para o Concurso Diadesol, no qual os últimos curtas foram premiados no mesmo concurso com o 3ºlugar cada um.

Mas existem também outros filmes como Retratos de Cotidiano (dir. Fábio Santos), Era uma Vez no Sítio São Francisco (dir. Nelson Simplício), Nas Escuras (dir. Wesley Gabriel), No Rolê (dir. Wesley Gabriel) que abordam respectivamente questões do cotidiano universitário, das construções históricas feitas em cima do povo periférico,  da identificação dos moradores dos Pimentas e etc.

​Crédito:(Divulgação)

O que é importante pra vocês nesse processo de produzir um filme? Desde o momento em que vocês tem uma ideia até a recepção dele.

R: Vemos a importância de uma produção como um todo, desde a concepção da ideia, a criação do roteiro, a pré-produção, a produção, a arte, a fotografia, o som, a montagem até a edição são de extremo valor.

Mas para todos os integrantes o que tem que estar bem claro é o discurso que se quer transmitir. A partir deste contexto o grupo se reúne e troca informações para ver o melhor jeito de trabalhar essa ideia dentro da linguagem audiovisual.

Outra questão que prezamos no processo é a horizontalidade no processo criativo enquanto coletivo, apesar de cada um cumprir individualmente uma função dentro da produção, as nossas decisões na construção das obras são coletivas.

​Crédito:(Divulgação)

Além do Kinoférico vocês fazem parte de outros grupos?

R: Sim. A maioria dos membros atuam em diversos grupos, mas no geral todos nós fazemos parte do Projeto Comcom Pimentas.

Há também um componente, o Nelson, que atua em outros dois coletivos, o Polissemia e o Cineclube Incinerante, que realizam a Mostra Guarulhense de Cinema anualmente.  

​Crédito:(Divulgação)

Como é a cena de cinema em Guarulhos?

R: Podemos dividir hoje o cinema Guarulhense em quatro momentos: no primeiro existiam algumas produções, alguns poucos cineastas. Entre eles: o Rubens Mello, André Okuma entre outros. 

O segundo momento foi quando houve a tentativa de criação de uma escola de cinema em Guarulhos na gestão passada do município, mas foi descontinuada. Apesar disso fez aparecer muitos coletivos de cinema como o Polissemia, o Kinoférico e o ID CINI.

No terceiro já existem vários grupos formados que estão espalhados pela cidade produzindo audiovisual, mas ainda não havia um meio de divulgação. Neste momento cria-se, então, o Cineclube Incinerante que começa a difundir as produções guarulhenses pelos quatros cantos da cidade. Com isso surge a na Mostra Guarulhense de Cinema, que está na sua quarta edição.

E o quarto momento emerge uma nova geração de cineastas que começaram a produzir a partir das oficinas ministradas tantos pelos cineastas antigos de Guarulhos como dos coletivos.

Agora se pensarmos a questão estrutural de fomento do audiovisual da cidade de Guarulhos com a capital São Paulo, é muito gritante a diferença porque Guarulhos é visto como cidade dormitório este é um ponto.

Segundo não há um edital voltado para as produções audiovisuais, e sim o edital Funcultura que abrange os seguimentos da arte como um todo, criando assim uma forte disputa entre as diversas áreas da arte.

O terceiro ponto é que não se tem qualquer espaço para exibição dos filmes guarulhense. A única produção que teve uma exceção foi o longa “Vai Guarulhos”, que ganhou uma exibição especial no Cinemark do shopping Internacional de Guarulhos, mas foi só.

Resumindo: não existe o hoje em Guarulhos de fato políticas públicas que venham pensar as diversas questões do audiovisual na cidade.

​Crédito:(Divulgação)

De onde vocês falam e para quem vocês falam?

R: O coletivo Kinoférico tem total compreensão e clareza da sua voz e para quem quer comunicar.

Somos umas das diversas vozes dos Pimentas, que veicula e constrói o imaginário de um povo que desde de sua existência é oprimido pelas questões sociais, pelas violências, pelas descriminações, pelas faltas de políticas públicas e por esse aglomerados de mídias (canais de TV) que só propagam desgraças sobre aqui e nada fazem para a melhoria.

Queremos um pertencimento e empoderamento da nossa comunidade. O coletivo não é só mais um grupo que produz filmes que retratam as problemáticas que a periferia traz consigo mesma, mas sim produtores audiovisuais (cineastas- intelectuais) que estão engajados em questionar toda essa infraestrutura que está posta por décadas, séculos, em uma sociedade que tende a nós humilhar todos os dias só porque não fazemos parte de uma determinada classe social ou mesmo porque temos uma cor “X”.

 Cada curta nosso produzido de maneira independente é um abalo nessa estrutura capitalista que só tem a visar o lucro ou a mercadoria como mais-valia.

Por fim, por mais que os nossos curtas atinjam festivais a fora ou mesmo que ganhemos diversos prêmios, o Kinoférico sempre terá essa forte identificação com os Pimentas e seus moradores, somos raízes desse solo.

Crédito:(Divulgação/da esquerda para direita: Gabriel, Alice, Nelson, Wesley Gabriel e Fábio Santos)

Kinoférico já ganhou:

// 1º Concurso de Poemas, Fotografias e Curtas - metragens da Unifesp na Semana Unifesp Mostra A Sua Arte (SP)

//2º Lugar com o curta-metragem "Retratos de um Cotidiano" direção Fábio Santos; 

//Concurso Diadesol 2016 (SP) - com 3º lugar com o curta "R(atos)" direção Fábio Santos e Nelson Simplício- animação

// Concurso Diadesol 2017 - com 3º lugar com o curta "Alakazam" direção Fábio Santos; 

//II Go Film Goiânia Festival (Goiânia) - com os prêmios de melhor direção Nacional e melhor edição nacional com o curta "No Rolê" direção Wesley Gabriel, com exibição dos Prêmiados em Almada, Portugal.

Aqui você encontra uma entrevista que o coletivo realizou recentemente para o Tribuna Autoral.

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