Šárka Grauová e Pablo Rocca falam sobre importância do crítico

Faltam poucos dias para o fim da Ocupação Antonio Candido, que acontece no Itaú Cultural. A exposição que teve a participação de sua neta Laura Escorel na concepção, está em cartaz desde maio.

Na ocasião da abertura houve também um congresso com diversos estudiosos, entre eles a professora de literatura brasileira na Universidade Carolina de Praga Šárka Grauová e o crítico uruguaio Pablo Rocca. Conversamos com estes eles para saber um pouco mais sobre o alcance da obra de Antonio Candido. 

Crédito: Guilherme Oliveira/ Šárka Grauová

L: Fale um pouco sobre você, sua formação, sobre o que pesquisa.


S: Meu nome é Šárka Grauová, sou professora de literatura brasileira na Universidade Carolina de Praga. Também sou chefe do departamento de estudos luso-brasileiros e presidente da Sociedade de Língua Portuguesa. Então essa a parte oficial. 

Eu me formei ainda no antigo regime, quer dizer, antes da queda do muro de Berlim, antes do desaparecimento do mundo bipolar. Quer dizer que eu cresci num ambiente que não era livre. Era um sistema autoritário. Eu inclusive nunca pensei em estudar português, eu queria estudar inglês e no ano em que entrei na universidade a combinação de disciplinas obrigatórias foi inglês e português. Então eu sou uma lusitanista um pouco a contra vontade [risos]. Mas pouco a pouco comecei a gostar. 

Estive em São Paulo pela primeira vez em 1991 e tive uma grande sorte de conhecer o pessoal do IEB especialmente Telê Ancôna Lopez que foi na verdade minha primeira professora de literatura porque antes daquela época eu era uma autodidata. E foi a Telê que me disse você precisa ler Antônio Cândido. Então eu comecei a ler Antônio Cândido, comecei a ler o textos da literatura brasileira. 

Hoje em dia minha pesquisa se concentra na literatura da virada do século XIX pra XX.  O que me interessa especialmente é aquele lado avesso da modernidade, porque a modernidade trouxe não apenas o progresso mas também trouxe a exclusão, trouxe a discriminação racial e todas essas coisas. Então eu trabalho com Lima Barreto, Cruz e Souza [...] Euclídes da Cunha e tudo isso.

Além disso eu gosto muito de traduzir livros brasileiros porque uma maneira mais eficiente de introduzir o Brasil para o leitor tcheco. Então eu traduzi Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, traduzi Macunaíma de Mário de Andrade, traduzi Budapeste de Chico Buarque, vários outros livros.


L: Você comentou comigo sobre esse livro que está segurando. Gostaria que falasse um pouco dele, sobre suas características. Você havia falado que ele faz parte de um tipo de literatura clandestina. 
 

S: Bom, na verdade eu só vi uma vez na vida Antônio Cândido. Quando a professora Telê me disse vai ter uma palestra de Antônio Cândido não tem como você não ir. Então eu fui naquele ano 91 e eu acho se me lembro bem que foi uma palestra sobre Shakespeare. Foi o meu único contato, foi a única vez na minha vida que eu vi Antonio Candido. Mas quando voltei a Praga em 91 eu tinha 26 anos e era uma pessoa realmente jovem e a gente não tinha aulas de literatura brasileira na universidade de Praga. 

Não fazia parte da minha formação. Então pra mim Antonio Candido, os escritos de Antonio Candido foram na verdade uma iniciação a literatura brasileira. Eu tenho uma prova disso que eu consegui naquela época, já não me lembro muito bem de que maneira, eu consegui uma cópia xérox da Educação Pela Noite. E aquilo pra mim  foi uma preciosidade porque a gente não tinha livros brasileiros na biblioteca ou tinha mas era muito pouco. 

Então a minha estima pela obra de Antonio Candido da pra ver, ou podemos ver nesse exemplar que eu mandei encadernar o xérox, como a gente fazia, encadernar a literatura clandestina, aquela que não podia ser publicada oficialmente e saia em edições que não eram postas a venda. Então Antonio Candido na verdade foi meu mestre de literatura brasileira sem saber.


L: Sim.. e pra gente fechar, o que que mais te chamou atenção, o que mais te toca na obra dele, do Antonio Candido?


S: Eu acho que tem duas coisas. O primeiro que eu estimo imensamente em Antonio Candido é que ele na verdade não tem um método. Isso não é uma coisa depreciativa que eu estou dizendo. Mas ele tem muitos instrumentos e ele consegue utilizar quando a obra chama por aqueles instrumentos.

Ele não tem um moinho de teoria em que um teórico mói todas as obras literárias da mesma forma, sai sempre essa massa que não tem uma característica especial. Eu acho que Antonio Candido não faz isso. Ele lê todas as obras de uma maneira individual. Ele procura encontrar em si aquilo que pode ser, ao encontro daquela obra que ele analisa.
 
E eu acho que isso é uma coisa pra mim muito importante. E a outra coisa que eu vim a estimar em Antonio Candido e com a idade é uma coisa que eu estimo cada vez mais, é que pra ele a leitura, a literatura é um experiência. Não é um objeto de ciência, não é um objeto da nossa carreira de professores, é uma experiência que tem capacidade de mudar aquilo que está acontecendo em nós. Eu acho que nessa época a gente precisa voltar a essa maneira de ver a literatura que essa capacidade de fazer o homem mais humano. 
 

Crédito: Guilherme Oliveira/ Pablo Rocca

L: Queria pedir pra você se apresentar e falar um pouquinho da sua trajetória.

 

P: Meu nome é Pablo Roca, eu sou uruguaio e nasci no ano 63. A referência..não, não é porque eu quero falar da minha vida, se não porque enquanto leitor de Antonio Candido eu tive uma experiência pessoal, talvez um pouco inusual. Não só dentro do meu país, se não até qualquer parte da américa hispânica por assim dizer.

Quando tinha 10 anos, no ano 73, começou no meu país uma ditadura que jogou fora quase literalmente, ou na cadeira ou fora, um conjunto importante de intelectuais dentre eles o Angel Rama que foi super importante, muito ligado com Antonio Candido desde o ano 60.

Então Rama foi para Venezuela e lá ele colaborou, criou um plano editorial incrível e extraordinário chamado  Biblioteca Ayacucho que comemorava a última batalha que Símon Bolívar deu contra os espanhóis e a partir dessa conexão de livros incorporou o Brasil, incorporou a escrita brasileira, não só a literatura brasileira, são diversos gêneros de escrita brasileira e para o qual Rama contou com o apoio do Antônio Candido que trabalhou ativamente, tanto ele quantos os seus discípulos mais próximos como Robertos Swartz, por exemplo.

Então, estou falando assim porque Rama morreu no ano 83 num acidente de avião e quando ditadura no Urugai acabou no ano seguinte, então no ano 85 a biblioteca do Rama e seu arquivo voltou para o Urugai. Bom por coincidência ou não, talvez porque não existe o acaso eu comecei, tendo 22 anos, comecei a trabalhar como pesquisador na editora que era de um plano de trabalho da história da literatura do José Prata, na editora que era do Rama e aí teve acesso direto ao acervo de livros, sobretudo a biblioteca dele.

A partir desses acessos conheci a obra do Antonio Candido. Um dia eu me lembro com toda precisão, eu estava preparando o que depois foi um livro sobre o jornal no qual Rama dividia página literária, e um artigo do Rama chamava Lá Construcion de una Literatura, citava longamente a definição de Sistema Literário criada pelo Antonio Candido no seu livro Formação da Literatura Brasileira. O único. Esse artigo era do ano 60 e Formação da Literatura Brasileira tinha aparecido poucos meses antes.

O fato é que Candido passou por Uruguay no ano 60 para ministrar um curso, e foi a primeira vez que Candido saiu do Brasil para um país hispano americano, depois ele foi para a México, para Cuba e para o Peru. Mas o primeiro país foi Uruguai e aí se conheceu com Rama e mandou o livro para ele.

Rama ficou realmente fascinado e de certa maneira organizou parte da sua interpretação da literatura, primeiro uruguaia e depois hispano americana a partir das ideias de Candido nesse livro. Bom, assim eu descobri o Candido que pra mim, claro, aos 22 anos é uma coisa absolutamente normal. Tempo depois vi que não era tão...tão habitual assim para um não brasileiro, por assim dizer.

L: Na congresso você falará sobre a relação do Antônio Candido com outros autores hispano americanos. Queria que você também falasse um pouquinho sobre isso.

P: Então, justamente a partir daí eu comecei a ter uma consciência, por assim dizer, da importância que Antônio Candido tinha para a literatura, e sobretudo para o pensamento crítico, hispano americano.

A pergunta poderia ser: Em que medida, depois de uma imensa comunicação entre Brasil e os países fronteiriços da América Hispânica, em que medida é possível estabelecer contatos do tipo intelectual, através dos textos. Não é uma coisa muito frequente, apesar de por exemplo Sérgio Buarque de Hollanda, Raízes do Brasil foi traduzido no México, não foi um texto muito lido né. Talvez Gilberto Freire mais um pouquinho.

Bom a obra de Antônio Candido não estava traduzida para o espanhol até pouco tempo atrás. De fato, por exemplo, Formação da Literatura Brasileira acaba de ser traduzida no México, um ano e meio atrás.

Enfim.. é a pergunta começou sendo isso e também no retorno.. como no Brasil, até que ponto do Brasil é possível ler os escritores hispano americanos, os críticos hispano americanos e estabelecer pontes de comunicação entre as duas línguas que são ao mesmo tempo... formam parte de uma mesma cultura em geral que chamamos América Latina.

Bom, o fato é que depois, uma peripécia biográfica, por assim dizer, eu a fortuna de vir muito ao Brasil a partir do ano noventa e poucos e até o ponto que fiz meu doutorado que fiz aqui na USP sobre a obra de Antônio Candido, de Rama e de Emilio [...], que era um outro crítico uruguaio muito importante fora do Uruguai também. 

Do que vou falar agora tem a ver com isso, mais um pequeno passo que tento dar. Pegando não só a relação crítica do pensamento de Candido com Rama, se não incorporando outros dois críticos e pensadores hispano americanos, o argentino David Viñas que tenho constância, que conheci pessoalmente e que não conhecia pessoalmente Antônio Candido e o colombiano Rafael Guitierrez a quem não sei bem se Candido conheceu, acho que sua obra conheceu pouco.. e só a partir da mediação do Rama. Então a ideia seria explorar algumas linhas de trabalho comuns apesar de que eles não se conheceram, com algumas exceções, de perto.

Então, pensar uma rede do pensamento latino americano com parte de um pensamento além das circunstâncias latino americana, isto é como pensamento crítico.

L: A última pergunta pra gente encerrar. Você falou um pouquinho antes da entrevista sobre esse contato pessoal,  essa literatura que a gente faz por ser uma pessoa que tem direito a literatura. No que que a obra do Atonio Candido te toca em especial? O que que te chama atenção nele?

P: Bom é difícil, sobretudo estando aqui e agora, neste contexto de uma exposição tão bem montada quanto está, que realmente é uma coisa exemplar. Também apesar de que o professor Candido morreu um ano atrás, apesar de que ele tinha noventa e nove anos, ele.. realmente.. uma manifestação quase sobrenatural, né? Porque conservou uma lucidez absoluta, plena até o último momento.

Eu me lembro que meu amigo e mestre Jorge Schwartz me escreveu que, pouco tempo antes de que o professor Candido morresse, que tinha estado com ele na tua casa e que estava ótimo, que estava mais lúcido que nunca né.

Então aí é difícil se afastar da questão pessoal ainda. Mas a obra do Candido é uma obra complexa, no sentido que é uma obra grande, e ao mesmo tempo é uma obra é... que é um serviço para os outros. Ele não cultiva a complexidade pela complexidade mesma. Ele cultiva o pensamento crítico profundo, mas que tenta se aproximar ao outro.

Nesse sentido eu acho que ele fez uma contribuição imensa para o conhecimento de vários autores, principalmente brasileiros, claro porque a proximidade de nosso contexto sempre nos condiciona de certa forma. Mas também para a literatura hispano americana.. ele tem um texto que para nós é fundamental que chama-se Literatura e Subdesenvolvimento, que foi publicado originalmente no ano 1982. Primeiro em espanhol, antes que em portugues.

E bom, essa relação entre o exame da literatura junto com a ideia que não é possível pensar a literatura e a cultura sem pensar os problemas teóricos da literatura e cultura é um ensino que é muito produtivo. Temos muito para colher daí..

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