Rafael Roncato: "O padrão é não ter padrão"

Uma das fotos de "Adágio", de Rafael Roncato 

 

Falar do outro é uma desafio. Muitos se deixam tomar pela comodidade de reproduzir estereótipos. Outros preferem se arriscar e aprender, como é o caso do fotógrafo Rafael Roncato.

Em Adágio, ensaio produzido em 2013  e em exibição na Ugra Press até 9/12, Roncato clicou a cartunista Laerte Coutinho. Nas oito horas de trabalho para produção das fotos, compreendeu questões relacionadas à transgeneridade e a cultura crossdresser. 

Em entrevista ao site O Beijo, ele conta um pouco dessa experiência e também revela detalhes sobre a elaboração da proposta que guiou o ensaio. Confira abaixo trechos do bate-papo. 

 

(Créditos: Rafael Roncato)

 

SITE O BEIJO -- Por que o ensaio chama  Adágio?

RAFAEL RONCATO -- Tem a ver com o processo de produção e o resultado do trabalho. Adágio é um andamento musical. É tão vagaroso que quase é imperceptível. Às vezes, possui também umas explosões inesperadas no meio da música. Não sei, acho que também se relaciona com a Laerte. Em 2008 ou 2009, ela assumiu tanto a homossexualidade quanto o envolvimento com o crossdresser

 

(Créditos: Rafael Roncato)

 

SITE O BEIJO -- Quando surgiu a ideia?

RR -- Foi em 2012, mas as fotografias aconteceram mesmo em 2013. Ela estava precisando de umas fotos de divulgação. Como tinha gostado de um trabalho que havia feito, me chamou. Eu topei. Ficamos de janeiro a julho de 2013, trocando emails. A ideia das fotos com nudez aconteceram dentro dessas conversas. Não foi uma coisa planejada, foi parte do fluxo. Fizemos as fotos de divulgação, as tintas e o nu em 8 horas de estúdio.

SITE O BEIJO -- 8 horas?

RR -- Sim, foram 8 horas diretas, a gente não parou nem para comer. Foi bem maluco, doido e desgastante. 

SITE O BEIJO --  E as ilustrações que estão na exposição?

RR -- Surgiram no processo de troca de email, logo depois de falarmos das fotos com nudez e da possibilidade de usar tintas para ter uma plasticidade mais interessante. Em cinco minutos,  ela fez tudo. Me mandou os desenhos todos de uma vez só.  

 

(Créditos: Rafael Roncato)

 

SITE O BEIJO --  A transgeneridade e  a cultura crossdresser tem sido bastante discutidos? Teve algo sobre esses temas que você aprendeu durante o processo?

RR -- Aprendi bastante. Tem umas nuances que são bem difíceis de compreender, principalmente para quem não lê sobre ou faz parte desse cotidiano. Minha formação como jornalista, entretanto, me ajudou a ter a cabeça mais aberta possível, Dessa forma, não sei, não teve nada de muito diferente, foi bem natural.

O que mais me chamou atenção foram os comentários doentios, como:  "Acho que isso é um absurdo". Não é um absurdo. Não tem nada de bizarro.Colocam na nossa cabeças padrões e a gente tem que aceitar? O padrão é não ter padrão.

 

(Créditos: Rafael Roncato)
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