"Que corpo enxergamos? Como eu me vejo? Sempre me questiono"

Ilustração de Sophia Pinheiro (Créditos: Reprodução/ Facebook)

 

Sophia Pinheiro  (Créditos: Reprodução/
Facebook)

Sophia Pinheiro, 27, é uma artista e pesquisadora goiana. A entrevistei no final de 2016, quando as tormentas políticas pareciam desmerecer qualquer plano para o novo ciclo que se anunciava.

Seus trabalhos surgiram na minha timeline (a nossa bolha de cada dia), entre o cansaço típico de dezembro e o desejo de não se deixar vencer pela reclamação crônica (uma dos aspectos ruins da vida adulta).

No início, confesso, me incomodaram. O traço fino, me remetia a ideia (torta) de feminilidade frágil. Mas coisa boa é deixar as ideias prontas morrerem e a água correr. 

Em um dia de sol, então, vi uma ilustração  que me chamou atenção. Uma mulher andava/se equilibrava em uma linha fina. Pareciam uma prima de 3º grau muito interessante dos personagens do artista pernambucano Leonilson. Resolvi investigar Sophia (a produção, né?).

 

Ilustração "se me deixa virar a esquina, adeus", de Sophia Pinheiro. Está no livro faz rs, de Larissa Mundim (Créditos: Reprodução/ Facebook)

 

Fucei, fucei e mais coisas foram surgindo. O corpo como inspiração e suporte. A pesquisa sobre e com a cultura indígena. Enfim, muita coisa que vale a pena compartilhar. Abaixo, você conhece a Sophia e seus trabalhos em uma entrevista longa e boa. Quem sabe, é um brilho a mais para esse ano que se inicia. Boa leitura e Feliz 2017.

 

Sophia Pinheiro, e s / c o r r e n d o, aquarela & nanquim s/ papel, 2015 (Créditos: Reprodução/ Facebook)

 

SITE O BEIJO -- Quais áreas em que você atua?

Sophia Pinheiro -- Me afirmo como pensadora visual. Interessada nas poéticas e políticas visuais, processos de criação, na antropologia e/da arte, culturas e representações das imagens: artes visuais, ilustração, gravura, cerâmica, design gráfico, arte & tecnologia, fotografia, audiovisual e antropologia.

SITE O BEIJO -- Quais suas referências na ilustração?

SP -- É muita, muita gente. Procuro muita referência nas artes visuais também. Gosto muita da artista Ana Mendieta, Arissana Pataxó, Marisol Calambás, Guerrilla Girls... Tenho comigo muitas referências de artistas atuais e principalmente artistas mulheres como LoveLove6, Irana Douer, Thais Ceramico, Frances Cannon, Juliana Lapa, Clara Moreira, Catarina Bessel, Mariana Zanetti, Valentina FG, Carla Barth, Clarisse Gonçalves, Luda Lima, Laura Teixeira, Ciça Fittipaldi, Angela Lago, Yara Kono e muitas amigas de Goiânia que ilustram como Suryara, Emilia Simon, Bia Perini, Santa Brígida, Natasha Xavier... Na verdade toda a galera que passou pelo FAKE FAKE me inspira bastante! Alguns homens como Rui de Oliveira, Fabio Zimbres, Andrés Sandoval, Daniel Bueno, André da Loba, alguns artistas como Chagall, Klimt, Miró e muita referência de Saul Steinberg. O que me pega são sempre pessoas que trabalham questões poéticas e políticas do corpo e sociais.

 

Ilustração de Sophia Pinheiro, também é parte do livro faz rs, de Larissa Mundim (Créditos: Reprodução/ 
Facebook)

Sophia Pinheiro, sem título, nanquim, junho, 2016

SITE O BEIJO -- Você leva seu corpo para as imagens que produz. Pode comentar esse aspecto em seu trabalho fotográfico?

SP -- Levo muito meu corpo na fotografia, no vídeo e no desenho, como você disse: nas imagens que produzo.

Penso que trago comigo - na pele, latentes - minhas experiências pessoais para meu trabalho com muita força.

Desde criança sofri muito na escola porque era gordinha/gorda, na adolescência melhorou um pouco pois foi quando eu comecei a me interessar por mulheres como Courtney Love, Bikini Kill e o movimento Riot Grrrl. Nessa descoberta eu comecei a me descobrir e descobrir o feminismo. Tenho a consciência de que meu corpo não encaixa nos padrões estéticos que são impostos as mulheres - esse padrão branco e heteronormativo, sabe? Sempre fui gordinha e até alguns anos atrás eu deixava a baixa estima doer. Deixava doer pela estética e pelas violências sexuais que sofri. Incentivada por todas essas mulheres artistas, músicas e escritoras e o feminismo, comecei a observar meu corpo e conseguir aceitar a diferença. É através da arte eu luto. Arte-vida-trincheira.

Que corpo enxergamos? Como eu me vejo? Sempre me questiono.

"todo corpo é um mapa" [deleuze] -- perde-se. guia-se. cria a si e o mundo a todo momento. meu corpo é minha pátria e está sempre mudando. um corpo desterritorializado. censurado. como, se preciso tapar o bico dos meus seios? como se preciso tapar o sexo dos meus desenhos? como se ao fechar os olhos enxergo nanquim? o que há no corpo? como, se preciso me vestir para caminhar dentro da minha cidade e não enxergar o meu mapa? #corpocampo (Créditos: Reprodução/ Instagram @sophiaxpinheiro)

 

 

(Créditos: Reprodução/ Facebook)

 

SITE O BEIJO -- Você acha que a relação sem tabus com o corpo ainda é um desafio?

SP -- Acho sim e muito. Um exemplo básico e simples é o Facebook, a maior rede social atualmente, que censura bicos de peitos, por exemplo. Bicos de peitos que estão em obras de arte! O corpo feminino foi muito reproduzido na arte mas na maioria das vezes, por homens. Creio que o tabu feminino de autoconhecimento e da autorepresentação seja também devido a essas tensões e rompimentos. Representar o corpo - principalmente feminino e por mulheres - sem objetificá-lo e objetificá-lo se este for o intuito do questionamento. Particularmente, produzo minhas intimidades como gestos políticos. Deleuze diz que "todo corpo é um mapa". Um mapa em que se perde e se guia, criando a si e ao mundo a todo momento. Meu corpo é minha pátria e está sempre mudando. É um corpo desterritorializado e censurado. É um desafio imenso porque nos é negado expor, conhecer e compartilhar tudo o corpo sente: do desejo à dor.

SITE O BEIJO -- Onde podemos achar mais informações sobre seu trabalho?

SP -- Pelo site (nada atualizado): http://cargocollective.com/sophiapinheiro

Melhor sempre pelo Instagram: www.instagram.com/sophiaxpinheiro

E página do Facebook: www.facebook.com/sophiaxpinheiro

 

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