“Por que o Oficina é o proibidão até hoje?"

Todas as fotos foram produzidas pela fotógrafa Leila Fugii.

 

Entre os figurinos dos espetáculos As Bacantes Paranóia, ele abre a camisa, tira os sapatos e solta os longos cabelos. "Vou colocar uns fios na cara, porque estou com umas manchas de tinta na testa do espetáculo passado".

O ator Marcelo Drummond posou sob as luzes que entravam pelas imensas janelas do Teatro Oficina, ao lado de cálices dionisíacos e garrafas de vinho já abertas. Com riso fácil e toda disposição do mundo, circulava pelo camarim localizado no ponto mais alto do teatro. Procurando espaços e posições para ser fotografado: "Quer com a mão no pau ou sem?".

Ao lado do arranjo que usa em cena, com folhas douradas e uvas carnudas, o ator, apesar de toda a familiaridade com a exposição, confessa ser tímido. "Não sei posar, só fazendo cena. Não acho incomum um ator ser tímido, porque a gente lida com o espírito. Então, quando estamos fazendo um papel, aquela timidez é trabalhada na nossa cabeça. Trabalhamos com todos os tipos de humano e se pode ser qualquer coisa no teatro, né?".

Drummond é carioca da gema, nascido no Grajaú, bairro da Zona Norte, vizinho da Vila Isabel. Cresceu na Barra da Tijuca ao lado do pai engenheiro e da mãe chefe da família com 8 crianças. O 6º filho da casa foi um menino quieto na escola, que nunca havia imaginado ser artista. "Sempre apanhei e nunca fui de bater".

Depois de sair do colégio, entrou para o curso de Biologia, na Universidade Santa Úrsula, em Botafogo. "O teatro chegou na minha vida durante a faculdade. Eu me lembro que o que me marcou foi Asdrúbal Trouxe o Trombone". O grupo de teatro formado em 1974 revelou uma geração de jovens talentos da comédia, como Regina Casé e Luis Fernando Guimarães. Sob a direção de Hamilton Vaz Pereira, os artistas propunham uma desconstrução da dramaturgia, com criações coletivas e uma linguagem informal.

"No Rio, tinham vários grupos de teatro e comecei a ver o que eles produziam. Comecei a ir ao teatro com 16 anos e tudo era para 18. Então eu adorava principalmente porque era* proibido e que se foda. Eu só queria assistir umas peças. Sou um criminoso por isso?".

 

 

 

“Eu comecei a desbundar, porque queria fumar maconha, andar na praia e conhecer gente”. A falta de oportunidades de trabalho na área de Biologia fez com que Marcelo repensasse o que desejava para a vida. O movimento da Tropicália marcou o futuro ator profundamente, mostrando a ele as possibilidades de produzir uma arte que fugisse da comédia.

"Eu tinha a Tropicália como um movimento cultural, saca? Mas ela era pop e acabou tendo mais destaque na música. Os músicos tiveram o apoio de multinacionais (gravadoras estrangeiras), então militar nenhum ficava em cima. Isso deu passagem para alguns, principalmente para quem soube caminhar melhor, mas o teatro foi massacrado, como se não fizesse parte daquilo. Foi o mais reprimido pela ditadura".

 

“O teatro não tem indústria. O teatro é a gente que faz. Não há nada por trás e ninguém banca”

 

Fora da faculdade, Marcelo trabalhou como garçom para pagar as aulas que fazia na Casa das Artes de Laranjeiras, a CAL. Às vésperas de ingressar no curso regulamentar de teatro, conheceu José Celso Martinez Corrêa. 

"A gente deu uma trepada legal e dai ele quis saber o que eu fazia. Eu disse que tentava fazer teatro e ele falou: ‘Então você me conhece”. Eu respondi que não, porque realmente não conhecia aquela figura de São Paulo. Ele era muito maldito por aqui e por todo o Brasil, visto como a pessoa que todos duvidavam do que faria. Foi depois disso que cheguei no Oficina".

 

 

 

Filho de uma família de classe média, Drummond abandonou a cidade maravilhosa para se perder pelas ruas paulistanas. Não havia uma companhia forte e a casa de Zé Celso, que servia de sede do grupo, tinha sido assaltada. Os dois amantes mantinham-se com o pouco que tinham. "Como a gente sobrevivia? Não sei. Milagre, eu acho. A gente tinha projetos, sempre fazendo coisinhas aqui e ali. Vivíamos muito mal. Até hoje não vivemos bem", brinca.

Fazer arte durante um regime ditatorial é ainda mais complicado. Marcelo, como homossexual, viveu a época de difusão de ideais de liberdade, sobretudo do corpo. "Eu era um menino galinha e logo apareceu a Aids. A gente tinha medo. Eu ouvia as pessoas falando ‘Fulano está com Aids’ e três semanas depois o cara estava morto. Era um monte de gente que conhecia, já tinha transado e ficava sabendo que a pessoa estava doente. Ninguém mais durava".

 

 

Guerra contra a especulação imobiliária

Há muitos anos, o Teatro Oficina luta contra a especulação imobiliária que tenta dominar o centro da capital, construindo edifícios que ferem a história e a cultura da região. Desde 2009, o Grupo Silvio Santos tenta levantar uma série de torres no terreno vizinho da companhia, o que pode prejudicar a mobilidade da região e ir contra o projeto do prédio idealizado pela arquiteta Lina Bo Bardi, tombado como patrimônio histórico pelo Iphan.

Drummond coloca esse cenário como uma alegoria ao "empasse brasileiro". "Uma situação que não anda: a especulação versus o trabalho real. Sempre a força da grana que se impõe. O Brasil é assim, com uma classe dominante que monta em cima do povo".

 

 

O Proibidão

No mesmo ritmo que as liberações acontecem, o moralismo cresce, como reação. "Uma onda careta passa pelo Brasil e não deixou o teatro de fora". Esse ano, a página do Teatro Oficina foi excluída por violar os padrões do Facebook

"Eu não sei se todo mundo transa. Não sei se todo mundo tem prazer nisso. Existe uma moral de uma classe dominante e de seus malucos. Mas eles nem estão tão preocupados com a moral ou com o sexo, só querem dominar. ‘Sexo é para amador, meu negócio é o poder’".

"Eu também penso no poder, mas na força das pessoas. Hoje todo mundo pode, ainda mais com a internet. Mas ainda é o Zuckerberg que tem mais poder e são pessoas como ele que ditam o que podemos ver ou não".

​Assim como o Drummond de 16 anos que conseguia entrar nas peças para adultos, ele vê esse tipo de ação das redes sociais como uma medida inútil. “As pessoas fazem perfis falsos, com idades falsas. Se você quer proibir, o outro vai burlar só porque é proibição. O negócio é não proibir".

 

 

As Bacantes, assim como a maioria das produções do grupo, mexe com o público pela maneira natural com que trabalhavam a liberdade do corpo. A primeira montagem da peça se deu em Ribeirão Preto, em 1995, graças ao dinheiro que o grupo recebeu ao vender a guarda dos arquivos do Oficina. "Eu já ia fazer Dionísio, mas o projeto envolvia construir um teatro e uma companhia".

"Na primeira vez que a gente fez, era chocante. Chocante porque tirávamos a roupa junto com o público. Todo mundo ficava de 'mimimi'. Sabe 'mimimi' de burguesinho ‘Ai gente pelada’?Um saco. Mas chocava mesmo porque pegávamos alguém do público. Na cena podia tudo, até arrancar a roupa de alguém da plateia".

"Hoje, é como se quisessem que as crianças não soubessem como é um pau, que ela nasceu de uma buceta e que é resultado de uma foda. Não pode contar que ela tem cu e que pode dar e gostar. Daí chega numa idade, essa pessoa quer descobrir e começa a burlar as coisas. Às vezes o conhecimento ainda pode chegar errado, tudo por conta da proibição”. 

 

 

"Por que o Oficina é o proibidão até hoje? Por que aqui é um antro de drogados, maconheiros? Por que aqui as pessoas aparecem peladas? O Zé Celso virou o gênio do proibidão. A gente coloca em cena as transformações do mundo. As influências que a sociedade vive e as angústias que a gente sente ao pensá-las são jogadas no palco pelo ator. O teatro é um espelho do tempo".

 

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