Paulo Miklos: "A música é o meu álibi"

Ele é músico, compositor, ator e já foi apresentador de TV. Na estrada desde 1979, participou dos Titãs até 2016, gravou longas como É Proibido Fumar, atuou na novela Bang Bang e interpretou Chet Baker nos palcos.

Agora, em nova fase, o inquieto Paulo Miklos lança seu terceiro álbum solo. A Gente Mora No Agora estará disponível a partir de 11 de agosto em todas as plataformas digitais. O Beijo conversou com o artista sobre este novo projeto, confira:

 

(Créditos: Divulgação / Bruno Trindade)

 

Site O Beijo // De onde veio a inspiração para o tema do álbum? Paulo Mikos // Surgiu na verdade da minha parceria com o Emicida, é um verso dele, da canção que abre o disco, chamada A Lei Desse Troço. Eu convidei ele aos estúdios para a gente lançar um samba, uma música. Ele ficou me olhando e tal, queria fazer um retrato meu, sobre a minha estrada, minha história. E justamente acho que a inspiração foi olhar para mim e colocar esse momento em que estou.

É uma coisa inteiramente nova, tenho todas as possibilidades à minha frente, de me lançar para uma coisa que poderia ser vista como inesperada, me arriscar. E tudo isso foi inspirador pra ele, por exemplo no trecho “chorar é importante igual sorrir”.

É justamente isso, minha superação e minha história. Outro exemplo é “avisa que eu voltei sem sair daqui”, quer dizer, isso também tem a ver com meu momento. Estou fazendo as coisas que sempre fiz. Estou cantando, compondo, tocando, aquilo que venho fazendo nas últimas décadas, mas com essa grande renovação.

É um novo período, sem ter a nostalgia do passado, mas também sem ficar na ansiedade do futuro. É um retrato da minha história recente e do meu momento atual, por isso aqui e agora.

 

Site O Beijo // E como você definiria o álbum? Acho que esse álbum veio para me definir e me redefinir como artista. E eu me arrisquei, me lancei corajosamente para abrir essa identidade minha em parceria com tanta gente. Na verdade, eu só encontro minha identidade abraçando tudo aquilo que acredito que sou, e acredito que sou Erasmo, que sou Lurdes da Luz e sou Russo Passapusso. Isso faz parte de mim. E nesse sentido, esse álbum me controi e reconstroi, me define.

 

 

Site O Beijo // As parcerias para o álbum são compostas por gerações diferentes da música. Como é isso para você? Acho que essa é uma das minhas características, gosto de trabalhar com essas diferenças e transito muito bem entre elas. E nesse sentido foi natural convidar ídolos anteriores a mim, que é o caso do Erasmo Carlos em País Elétrico, mas também aqueles da nova geração que admiro.

Alguns exemplos são: Tim Bernardes em Samba Bomba, que é do grupo O Terno, tem um talento incrível; Mallu Magalhães em Não Posso Mais se mostra uma compositora fantástica; e também Russo Passapusso, integrante do Baiana System, em Vigia.

Site O Beijo // Como essas parcerias aconteceram?  O processo todo foi muito rico, muito especial. Fizemos músicas de todas as formas, inclusive pelo WhatsApp, algo que eu nunca tinha feito e foi uma experiência ótima, se mostrou uma maneira muito interessante.

A Lurdes da Luz em Afeto Manifesto, por exemplo, mandou vários trechos diferentes e eu adaptei à canção, foi um processo muito diferente. A gente cantava, cantava, ia definindo, cristalizando a canção, depois no dia seguinte a gente pensava "como ficou a música mesmo?" porque já eram tantas versões.

No caso do Russo em Vigia, enviei o material pra ele e fizemos a música sem nos conhecermos pessoalmente, o que só aconteceu três meses depois da música pronta. É uma modernidade, é extraordinário. Ele mandou a música de volta cantando, com letra e melodia, e o jeito dele cantar também muito a ver comigo, ele estava inspirado nisso, foi genial.

As parcerias criam novas situações que você não faria sozinho, e nem o seu parceiro, mas quando vocês compõem juntos cria-se uma terceira coisa. É quando você responde a um estímulo diferente proposto pelo outro, e isso te leva a um lugar que você não esteve ainda, então nesse sentido esse disco é cheio de descobertas e é isso o que eu gosto.

Site O Beijo // Você também tem parceria com Nando Reis e Arnaldo Antunes, ambos ex-Titãs. Como foi? A canção Vou te Encontrar é do Nando. Disse a ele que iria fazer um novo disco. Na verdade amigo você não convida, você convoca. Enviei uma ideia para a gente desenvolver. Ele não falou nada, passou um tempo, eu insisti, ele respondeu que tinha feito alguma coisa, mas não estava satisfeito e pediu mais tempo. Ok.

Um tempinho depois ele me ligou e disse: "Olha, aconteceu uma coisa incrível, acordei de estalo pensando em você, fiz a música pra você, sobre você, a partir daquilo que eu conheço de você e da sua história". Ele fez pensando nisso, pensando na Rachel [companheira de Miklos que morreu de câncer], com aquela emoção que ele tem quando faz uma música e colocar isso de uma maneira tão poética, tocante, é incrível.  

Já com o Arnaldo, em Deixar de Ser Alguém, foi o seguinte. Cheguei na casa dele com uma ideia, essa coisa de trabalhar, querer fazer o que gosta, mas essa não ser uma opção rentável. É aquela crise que todo mundo vive, que na verdade é uma crise contemporânea.

A gente estava falando sobre isso e surgiu a ideia de fazer um frevo, eu comecei a brincar no violão, cantarolando alegremente esse tal frevo. Quando fomos ver a gente estava “quer trabalhar pra si mesmo” com uma alegria! 

 

 

Site O Beijo // Você me parece uma pessoa inquieta, compõe, toca, canta, atua... Quais são seus próximos passos? Meu próximo passo imediato é o show e vai ser muito bacana.  Ele está baseado neste disco, mas também em várias outras vertentes. Por exemplo, meu trabalho com o Titãs é algo que eu tenho que contemplar, e também as coisas que fiz recentemente, como o Adoniran Barbosa no cinema e o Chet Baker no teatro, onde inclusive cantava as músicas dele. Referências musicais minhas, coisas em que me inspiro de uma maneira geral. Tem bastante coisa para construir esse setlist e o que vai ser esse show.

E em outubro começo a gravar um longa-metragem, com uma história muito interessante, que se passa nos arredores de Brasília, é uma trama policial bem ambientada, com um pouco de suspense. Por enquanto isso é o que eu sei.

Site O Beijo // E com tantas possibilidades, o que a música representa para você? É o que me salva, o que me alivia. Sinto uma satisfação incrível em fazer música, cantar, compôr, encontrar os amigos. A música sempre foi um álibi. Um álibi para encontrar gente, estar em lugares, me divertir junto de outras pessoas.

A música é para mim algo que reúne as pessoas, nunca foi uma coisa solitária, sempre foi um encontro. Então pra mim isso é vital, é o que me salva e o que sempre me salvou.

 

(Créditos: Divulgação / Bruno Trindade)

 

O show de lançamento do álbum A Gente Mora no Agora acontece na Casa Natura Musical, dia 17 de agosto, quinta-feira, às 21h30.

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