"Não dormi naquela noite. Chorei muito. Amanheci na beira do mar"

Em um camarim daqueles tradicionais, com espelhos, flores e lâmpadas potentes, o ator Matheus Nachtergaele, 49, se preparava para a estreia da segunda temporada de Processo de Conscerto do Desejo. Era o último dia de um março vagaroso.

No espetáculo, o ator recria sua mãe, a poetisa Maria Cecília Nachtergaele. Em um abraço amoroso e atordoante, a faz ressurgir nos poemas que ela escreveu. Os versos não ressoam soltos, são acompanhados pelas músicas favoritas da artista paulistana.

A ausência de Maria Cecília, no palco, é ora dolorosa, ora poética. Esse movimento remete, de certa maneira, à busca do ator por informações sobre a poetisa que se suicidou durante uma madrugada, quando ele tinha três meses.

Sobre essa história intensa e irregular, “perseguia a figura dela em fotos, narrativas e familiares”, Matheus conversou com O Beijo. A seguir, você confere trechos do bate-papo.

 

Matheus Nachtergaele no camarim (Créditos: Tatiane de Assis/ Site O Beijo)

 

O Beijo. Seu pai foi quem deu os poemas da sua mãe para você, não foi? Me conta um pouco sobre como foi isso. Matheus Nachtergaele. Quando tinha 16 anos, nós fizemos uma viagem para casa de praia de Ubatuba. A gente ia pra lá nas férias de verão, a família toda. Em um certo momento, ele me disse que queria passar um final de semana só comigo. Fiquei muito assustado. Previ as piores notícias do mundo. Não sabia sobre o que era, mas sentia que conforme ia adolescendo, alguma coisa me rondava.

Sempre soube que a Maria Cecília tinha morrido, que a Carmem, minha madrasta, não era minha mãe biológica, mas as versões sobre a morte da Cecília variavam muito. Em certo momento, parei de perguntar. Claro que perseguia muito a figura da mamãe em fotos, narrativas e familiares. Todo filho quer saber quem foi sua mãe. Sua mãe biológica.

Meu pai me levou então para essa casa e tomou um grande porre. Não foi a melhor das atitudes, mas foi como ele conseguiu ter coragem para me contar sobre madrugada da morte da Cecília, o suicídio e os detalhes todos. Depois disso, ele ficou bem fora de combate. Chorou bastante e dormiu. Fui para a praia caminhar. Não dormi naquela noite. Chorei muito. Amanheci na beira do mar. Voltei para casa e a Carmem já estava lá. Um pouco pressentindo que teria sido um papo difícil. Na verdade, meu pai estava precisando mais da ajuda dela do que eu. Fiquei muito em silêncio.

Nós ficamos em silêncio no carro. Quando cheguei em São Paulo, ele me deu uma pasta azul, aquelas de elástico, contendo os 30 poemas que a Cecília escreveu antes de morrer. Disse: “Não vou mais falar sobre isso, tudo que tinha que ser dito, eu já disse. Se você quiser saber mais coisas, pode ser que você encontre aqui, nesses poemas”. Então, eu recebi esse baque acompanhado por esse tesouro que eram as poesias da mamãe. De certa maneira, uma fala dela. Se (os poemas) não justificassem ou respondessem o porquê de sua morte, pelo menos me mostravam quem ela foi e o que ela sentia sobre o mundo.

Estava em um momento complicado e aí veio mais essa notícia, de que não era só um órfão, era filho de uma suicida. Por incrível que pareça, rapidamente, me alegrei por ser filho de uma pessoa tão talentosa. Já era um bom leitor. A partir do encontro com os poemas, passei a ler bastante poesia e a perseguir na biblioteca de casa os livros da mamãe. Ela colocava seu nome neles. Fui levando tudo pro meu quarto e lendo todos. É engraçado, o recebimento da notícias e dos poemas foi me encaminhando para a pessoa que sou.

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O Beijo. E você leu os poemas na hora que seu pai te entregou? De um fôlego só? Claro. Li na mesma hora. O que eu demorei foi para fazer um espetáculo. E, obviamente, passei muito tempo trabalhando isso na minha cabeça. Na minha vida. É um fato a se pensar. É uma coisa que marca a gente. Acho que toda morte de uma pessoa querida marca a gente. A consciência da morte nos marca, a todos nós, desde o início. A gente vai lidando com isso, mais ou menos, suavemente, se as coisas forem acontecendo de forma natural. O cachorro morre, o avô morre, a avó morre.

As coisas podem ser suaves quando a vida segue seu fluxo, mas quando existe um tranco desse tipo, você é obrigado a encarar o fato da morte de uma maneira mais conturbada, mais violenta, e o suicídio é uma questão tabu, uma temática delicada.  Não era o tema da minha vida, não existia esse assunto. Eu até já admirava alguns poetas suicidados. Sempre tive um carinho pelos desesperados artistas, mas não sabia que isso estava tão próximo de mim.

O Beijo. Sua relação com seu pai mudou? Não. Talvez. Acho que isso já é um aspecto muito íntimo. É um papo de divã. É claro que alterou sim, de alguma maneira. Me desesperei pela forma como ele me contou, me desesperei também durante algum tempo por ele ter estado ali e não ter conseguido impedir o suicídio. Mas a nossa relação é muito afetuosa.  Meu pai é um meninão, um homem avesso às grandes responsabilidades de trabalho e de pai. É um tocador de violão muito talentoso, um engenheiro nas horas vagas. Ele é um moleque que, tanto como eu, lidou com isso, de uma maneira difícil, abrupta.

Acabei digerindo essa história melhor do que ele ao longo desses anos. Ele só falou sobre isso naquela noite. Nunca mais tocou no assunto. Nem antes, nem depois. Espero que o espetáculo o tenha ajudado a se aliviar um pouquinho. Ele foi assistir o ano passado no Sesc Pompeia. Chorou bastante. No final, dançou comigo a valsa que danço com os espectadores. Achei tão bonito. Eu estava vestido de Maria Cecília e ele dançou, de certa maneira, comigo e com ela naquela noite. Mas mais detalhes é questão de divã, acho que não interessa às pessoas.

Eles se conheceram em rodas de violão, meu pai foi um dos fundadores da Traditional Jazz Band. Ela tocava também. Tem muitas fotos. É muito bonita a postura da mamãe no violão. Eu nasci de um romance musical que acabou dando nessa tragédia. Não sei detalhes do casamento deles. Parece que eram muito apaixonados, mas não sei, meu pai não fala muito sobre isso. Ele amou minha mãe, sou fruto de um casamento de amor.

 

"Para a minha alegria, a peça se tornou potente, minha queixa virou arte, minha homenagem se tornou cerimônia"

 

O Beijo.  Em 2014, você começou a montar o espetáculo? Em 2015, o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana me ligou. Queriam que fosse pra lá pra mostrar algum trabalho que tivesse na manga. Não tinha nada e desliguei o telefone. Cinco minutos depois, liguei de volta pra eles e disse: “Tenho os poemas da mamãe. Sempre quis mostrar para as pessoas, nunca soube como, nunca publiquei, nunca dirigi uma colega declamando, não sei, posso lê-los. É uma coisa muito simples, vou chamar um músico muito talentoso que conheço, o Luã Belik, e ele me acompanha fazendo uma trilha. Fazendo uma base sonora pra não ficar tão cru”.

Fui muito inseguro, mas também muito tranqüilo, pensando que era só uma leitura. Pro meu espanto, fiquei muito movido, a platéia ficou absolutamente comprometida com o que estava ouvindo. O fato do filho de uma poeta suicida estar em cena dizendo pela primeira vez os versos dela, em voz alta, comoveu demais as pessoas. Na saída do espetáculo, entendi que estava pronto para fazer aquilo, me senti bem, não me senti triste. Me senti orgulhoso em ser filho da Cecília.

Pouco depois, em novembro do mesmo ano, estava estreando a peça no Poeirinha. Sem patrocínio nenhum. Eu e Luã. Pedi para Marieta Severo e Andreia Beltrão, donas do Poeira e do Poeirinha, como amigo mesmo, o horário alternativo. Em uma semana, desenhei a luz junto com o iluminador, ordenei os poemas da mamãe pra que houvesse uma curva dramatúrgica qualquer dentro do espetáculo e ensaiei com o Luã as músicas que ela gostava de tocar com o meu pai.

Para a minha alegria, a peça se tornou potente, minha queixa virou arte, minha homenagem se tornou cerimônia. E aí, a gente foi sendo chamado para os grandes festivais pelo Brasil e tomando coragem para encarar temporadas longas em teatros grandes.

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O Beijo.  Assisti no Sesc Pompéia, um ano atrás. O que mudou de lá pra cá? Primeiro, você vai perceber a diferença clara de ver o espetáculo em um formato mais uterino como aconteceu no Pompeia e como foi na estreia no Poeirinha. Aqui é um teatro para o palco italiano. A intimidade, a proximidade das nossas carnes, a minha de ator, a dos músicos e a dos espectadores, não é tão grande. O espetáculo fica mais piafiano e a poesia atinge a gente mais como um Dó de peito. Acho que fica mais elegante, de certa maneira, um pouco menos visceral.  Por outro lado, a poesia fica mais clara, mais dita. 

Logo durante a primeira temporada no Poeirinha, a gente já foi pra Recife, pro Janeiro dos Grandes Espetáculos, fizemos no teatro Santa Isabel que tem quase mil lugares. Fizemos dois dias lotados.  Então, entendi que a peça também ficava bonita assim. Pra ter ideia, até em uma igreja, de Santo Antônio de Tiradentes, a gente fez o espetáculo. Dentro da igreja, dessa vez na presença de um órgão de época incrível. Virou uma celebração religiosa.

A peça tem se mostrado possível em muitos espaços.  O que nos libertou muito. Acho que a poesia da mamãe tem se mostrado dramática em vários tipos de lugares. Eu devia para São Paulo uma apresentação em um espaço maior. São Paulo é a minha terra, é a terra da mamãe, é onde me formei como ator. É um lugar onde o público ama teatro. Senti que tinha que voltar. Acho que vou vir mais vezes ainda depois dessa temporada. Tenho sensação de que mesmo fazendo outras coisas e outras peças, o Processo de Conscerto de Desejo vai me acompanhar. Meio que eternamente. É a minha peça da manga. E eu vou a cada momento da minha vida, fazer de um jeito. Faço ele hoje em dia de uma forma muito diferente do que eu fazia na estreia, com um outro entendimento da peça, dos poemas e da mamãe. Do que ela é e do que ela foi como artista e mulher.  

 

Detalhe do cenário de O Processo de Conscerto do Desejo  (Créditos: Tatiane de Assis/ Site O Beijo)
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