Mariana Ser e a Mulher Selvagem

Mariana Ser é fotografa e artista visual com 15 anos de experiência.  Já realizou o projeto  As Mulheres que eu Gostaria de Ser, fotografou diversos shows, dentre eles Lenine, Chico César, Mutum e também realiza colagens e fotocolagens. 

Seu trabalho mais recente exposto, A Mulher Selvagem, está no Centro Cultural Grajaú. Nele fotografou diversas mulheres que lhe inspiram como forma de homenagem, tendo como ponto de partida a relação familiar, em especial suas avós.

(Crédito:Divulgação/Mulheres Selvagens/Mariana Ser)

 

L: Em As mulheres que eu gostaria de Ser existe esse jogo de palavras que relaciona teu sobrenome a algo que você almeja. Ao mesmo tempo em que busca ser, você já é. Você propõe então a ideia de se encontrar a partir do encontro com quem te inspira por meio dos autorretratos. Se fosse para dar continuidade a esse projeto hoje quais outras mulheres você gostaria de ser e por quê?

M: Penso em dar continuidade ao projeto “As Mulheres que eu gostaria de ser” um dia, mas ele é denso, exige um mergulho profundo para dentro e nem sempre estamos dispostas a isso. Foi um período em que criar personas me levantou, tirou de uma zona de conforto emocional e permitiu construir uma nova imagem de mim mesma.

Se eu te disser que não sei quais outras mulheres eu faria, você acredita? Admiro tantas mulheres, mas nem todas eu conseguiria me caracterizar. Tento ir pela semelhança física além da admiração por quem são. Não quero com a minha fala diminuir suas importâncias em minha vida e sim dizer que surgiram em mim como inspirações pontuais.

Meu trabalho é bem intuitivo e meu processo criativo é uma avalanche, vem de uma vez, sem avisos. Todas as mulheres que eu caracterizei foram inspirações no próprio dia. Pesquisei e produzi as imagens em seguida.

O que mais gosto nesse projeto é que utilizei pouquíssimo espaço físico, equipamento fotográfico e produção para os auto retratos. Tudo na base do improviso e funcionou.

(Crédito:Divulgação/Maria Carolina de Jesus/Mariana Ser)

L: Para a R.Nott Magazine você comentou sobre construir uma história a partir da desconstrução de uma imagem no processo de colagem, sobre agregar novos símbolos e de “construir uma estética diferente e sem obviedades” no retrato de pessoas. Fale um pouco mais sobre o que você entende como possibilidade de reverberação que essa ideia pode ter.

M: Sim, o retrato é uma forma potente de linguagem e que abre muitas possibilidades de construção. Sabendo utilizar disso se consegue transmitir idéias, mostrar intenções e contar histórias que transcendem os limites físicos do papel fotográfico. A imagem aciona de forma muito rápida a identificação nas pessoas. A arte visual é uma ferramenta importante, que quando bem elaborada pode alcançar lugares e afetar as pessoas de forma diferente de qualquer outra arte.

Na época do projeto “As mulheres que eu gostaria de ser” recebi muitas mensagens de mulheres que ao se identificarem com meus retratos se sentiram fortes o suficiente para se vestir de outras personalidades também. Reverberou na auto estima de muitas outras mulheres quando eu reconstruí a minha. A imagem é uma energia que tem ida e volta, um espelho. A gente nunca sabe exatamente como ela vai reverberar no outro, mas torce pra que seja como pensamos. É um risco, fazer arte é um risco.

Legenda

L: Comente um pouco mais sobre o termo A mulher Selvagem, presente no livro As mulheres que correm com os lobos, e que dá nome ao seu atual projeto exposto no Centro Cultural Grajaú. Fale um pouco mais sobre como foi realizar essa mostra, as mulheres escolhidas e o que motivou a criá-lo.

M: A exposição “A Mulher Selvagem” foi uma forma de criação diferente, que veio após o convite do Centro Cultural Grajaú para expor meu trabalho no mês de Março em sua galeria. A proposta era que eu criasse uma exposição com retratos de mulheres comuns, para o mês da mulher.  Pensei não só em fazer alguns retratos de mulheres que admiro, como a Mel Duarte e a Ceumar Coelho, como também retratar outras mulheres que conheci no contato com a comunidade do Grajaú. A Maria Vilani e dona Jô, por exemplo, foram gratas surpresas no meio desse processo. Ou a Maura Rodrigues Carvalho e a Leide Cruz da Silva que são da equipe de limpeza do Centro Cultural Grajaú e agora tem seus retratos na parede de seus ambientes de trabalho em tamanho natural, como uma grande homenagem a elas.

Os contos do livro “As mulheres que correm com os lobos” foram a linha que eu precisava para costurar a idéia. Quando li a definição da autora Clarissa Pinkola Estés para o arquétipo da Mulher Selvagem entendi que queria retratar essa mulher que todas nós guardamos dentro de nós e não se consegue domar . Pude conversar um pouco com todas as retratadas e saber de suas histórias de vida. Guardo esse material comigo, infelizmente os vídeos não couberam nesse espaço (seria necessário equipamento de som e vídeo para cada uma das imagens), mas em outro espaço penso em mostrar mais desse material, rico e bonito, que sintetizei em um único vídeo.

Tem ainda uma árvore genealógica apenas com retratos das mulheres da minha família, que é bem diversa e miscigenada. Em sua raiz coloquei uma oração que minha avó fez e distribuiu a todas como forma de proteção. Uma homenagem e um convite para que cada um faça suas comparações afetivas e visuais com as mulheres de suas famílias.

Fiz questão de usar panos de chita como fundo fotográfico, que pra mim remetem a estética das pinturas africanas contemporâneas.

A exposição “A Mulher Selvagem” permanece no Centro Cultural Grajaú por pelo menos mais um mês, dá tempo de conferir.

 

 
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