"Hoje é possível viver de arte, por incrível que pareça"

As fotos desta matéria foram produzidas por Leila Fugii

 

Transcrever uma entrevista sem ficar entediado é uma tarefa árdua. Pergunte a qualquer jornalista,  essa é uma atividade “querida” entre os profissionais do meio. No entanto, regras, amores e ódios têm lá suas brechas. O artista Antônio Malta, com trabalhos em exibição na 32ª Bienal de Artes de São Paulo, é responsável por uma delas.

Conversei com Antônio às vésperas da abertura de sua exposição na galeria Leme. A ideia era saber mais sobre sua trajetória e produção, afinal, ele é o personagem da série Gente da Arte esta semana. O bate-papo começou super formal e terminou com muitas gargalhadas.

O motivo de tanta alegria: o artista paulistano simplesmente ria diante de temas tratados, muitas vezes, com sisudez. De seu senso de humor, nem as dificuldades da carreira escaparam – “Hoje, por incrível que pareça, é possível viver de arte. [Risos]. Antes, não era assim. Todo mundo tinha um segundo emprego”.

Abaixo, você confere trechos da conversa e uma tentativa de transportar as risadas por telefone para o papel.   Boa leitura.

 

 

O BEIJO -- Como você recebeu o convite para participar da 32ª Bienal? Foi uma surpresa?

Antônio Malta -- O Jolchen Volz (curador da exposição) já conhecia meu trabalho. A Júlia Rebouças (co-curadora) também. Durante o ano de 2015, trabalhei em pinturas grandes e inéditas e também em trabalhos menores, chamados “Misturinhas”. Como achei que tinha a ver com a Bienal, entrei em contato com eles. Eles foram no meu ateliê e depois fizeram o convite. Não foi necessariamente uma surpresa, mas até eles te chamarem, você não sabe. Acho que tem também influência desse momento favorável que estou vivendo. Nunca tinha participado de uma Bienal.

 

 

O BEIJO -- As "Misturinhas" relacionam referências visuais díspares e também parecem comentar a "História da Arte". Você poderia falar sobre isso?

AM -- As Misturinhas têm uma história própria. Comecei a fazê-las nos anos 2000. Totalmente sem pretensão. Não tinha ideia de que isso viria a ser um trabalho. Que um dia estaria na Bienal. A principal regra delas é a ausência de regras. Então, elas estão super abertas. Abraçam tudo. Coloco colagens de revistas, livros de arte, coisas totalmente diferentes. 

Eu as fazia quando chegava no ateliê, mas não estava com vontade de fazer nada. Sentava na mesa e ficava fazendo alguma coisa para ir passando o tempo, até começar o trabalho mais sério que eram as pinturas maiores.  

 

 

O BEIJO -- E como é seu processo de produção?

AM -- Um dia fui no ateliê da Ana Elisa Egreja e ela me disse: “Malta, veja bem, eu venho pro ateliê e trabalho. Não tenho tempo a perder”. [Risos]. Eu perguntei como ela consegue. Tenho meu tempo de enrolação. Quanto menos tempo ele demorar, melhor, mas até eu me obrigar a trabalhar, demora.

A partir do meio do ano passado, isso mudou um pouco, porque comecei a trabalhar com uma assistente, a Antônia Baudoin, filha do Rodrigo Andrade. A Antônia vai segunda e sexta à tarde, daí não posso ficar enrolando. E ela já vem com a energia dela, de gente de 22 anos. A coisa anda.

 

O BEIJO -- Você saiu do ateliê Casa 7 para trabalhar com arquitetura. O que motivou sua decisão? Em entrevista ao site O Beijo, o Rodrigo Andrade (também integrante da grupo) falou da dificuldade de se estabelecer como artista naquela época.

AM -- Todo mundo tinha um outro emprego, não tinha mercado. Hoje é possível viver de arte, por incrível que pareça. [Risos]. Naquela época, não. Fiquei super descrente. Achei que não ia dar para ser artista. Meio que parei. Minha filha era pequena, tinha conta pra pagar. Eu queria um salário. Realmente, consegui um, porém pequeno também.  E, agora, acabei voltando. É uma aposta.

 

 

O BEIJO -- Seu pai é arquiteto e sua mãe pedagoga. Sua família é bastante atuante na área cultural. Qual os pontos positivos e negativos disso?

AM -- Meus pais não só trabalham,  eles se cercam de cultura também. Nunca dependi de outras bibliotecas, porque a deles era ótima.  Desde os 10 anos, lia livros de arte.  Também tentava entender o que estava escrito naquilo. E tinha outra coisa importante, a gente desenhava muito. Uma das atividades diárias era desenhar. 

Agora, a coisa ruim é que todo esse envolvimento com a cultura me deixou uma pessoa pouco prática. Eu realmente sofri pra ganhar um pouco de dinheiro. [Risos]. Quando preciso, meus pais ainda me ajudam. Mas eles também não são bom com isso. A gente é super idealista e romântico, com a cabeça nas nuvens.///

 

 

// Atualizado em 25/11/2016, às 12:04. 

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