"Tudo o que a gente pode fazer, a gente faz"

Em um início de tarde quente demais para o outono, encontrei Rosi Campos no Sesc Vila Mariana. Ela descia as escadas brancas da praça, passo firme em cima de um sapato de saltos confortáveis. 

Falava sobre o calor repentino, sobre a estrutura do espaço e sobre as fotos da exposição Contos Amazônicos, enquanto procurava, junto com a fotógrafa Leila Fugii, um bom lugar para mais uma foto.

Fotos tiradas, nos dirigimos ao teatro da unidade. As portas estavam trancadas, era preciso pegar a chave. "Vamos fazer aqui mesmo, você não acha?", ela me disse. Escolheu o sofá que fica encostado na janela, aconchegou-se em um dos cantos, tirou o brinco de pressão e coçou o canto do olho como se estivesse sem maquiagem. 

 

Todas as fotos foram produzidas pela fotógrafa Leila Fugii.

 

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Rosângela Martins Campos nasceu em Bragança Paulista, interior de São Paulo, em 1954, mas veio para a capital com os pais ainda muito pequena. Sobre sua adolescência, conta que "a cabeça da minha geração foi feita toda no cinema, então a gente ia ao Cine Biju, na Praça Roosevelt, três - às vezes quatro - vezes por semana. Assistíamos Luis Buñuel, Constantin Costa-Gavras, Bernardo Bertolucci, François Truffaut,  Jean-Luc Godard, todos os grandes cineastas."

E continua: "Os filmes demoravam muito para chegar, por exemplo Laranja Mecânica demorou anos, a gente ficou esperando e quando veio, ainda veio censurado. Apocalypse Now, do Francis Ford Coppola, também pode ser um exemplo."

"Quero dizer que eram filmes que faziam a gente sair do cinema completamente alucinados pela beleza, e eu sempre quis fazer cinema, mas não fiz porque era 1974, só tinha Pornochanchada, pensei: ' se falar que vou fazer cinema, meu pai vai me matar'. Eu gostaria de dirigir mesmo, só que naquela época ninguém tinha abertura."

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Rosi é formada em jornalismo pela USP, e ainda na ECA começou a se interessar pelo teatro, e a atuar. "Na verdade assistia todas as aulas do departamento de cinema, de música. A ECA era muito legal naquela época, era muito aberta, então você podia assistir aula num departamento, no outro, no outro, no outro. E acabei fazendo teatro com um grupo da faculdade."

Desse grupo, foi convidada, por Douglas Salgado, a participar do Mambembe, substituindo Mirtes Mesquita. "Entrei em A Vida do Grande Dom Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança, que era um espetáculo lindo que o Carlos Alberto Soffredine fazia no SESC Anchieta e fiquei lá por vários anos."

 

Todas as fotos foram produzidas pela fotógrafa Leila Fugii.

 

"No começo eu só tinha olhos para o palco porque comecei no teatro, mas tudo o que a gente pode fazer, a gente faz. Às vezes a gente não consegue fazer tanto o quanto quer porque a novela, por exemplo, atrapalha o ensaio das peças, não consigo. Mas gosto de tudo, teatro, novela e cinema".

No teatro, Rosi Campos está com Marco Nanini em Ubu Rei, no Rio de Janeiro. Já no cinema, está em cartaz com Eu te Levo, de Marcelo Müller. Sobre o filme e sua personagem Martha, conta: "É um filme bonito, sobre o momento em que o personagem do Anderson di Rizzi- que faz o filho -, após a morte do pai, está para escolher se quer continuar o que o pai fez ou se quer tentar uma outra coisa. É um filme bem intimista, do momento da vida dele e a Martha - a mãe - é também muito perdida, vamos dizer assim, na vida, porque dependia também desse homem. É uma relação de fragilidade que os dois têm, é muito interessante".

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Dos personagens maternos, a atriz relembrou a Mamushka, da novela A Cor do Pecado: "Foi a novela que mais vendeu na Globo, depois de Avenida Brasil. Batia 50 pontos de Ibope e era uma Novela das Sete, simples que quando reprisa todo mundo assiste, essas coisas são malucas."

Ainda sobre novelas, a última em que participou foi Êta Mundo Bão: "O Brasil é extremamente caipira, a gente aqui que tenta ser chic, mas o Brasil é caipira, é sertanejo. Se perguntar aqui, metade da população é do interior. Esse estrondo que teve é uma resposta bem séria a isso que está acontecendo, porque a gente falava com sotaque e as pessoas amaram. Foi uma loucura e foi uma novela tão boa de fazer, tudo deu certo desde o começo."

 

Todas as fotos foram produzidas pela fotógrafa Leila Fugii.

 

Ainda sobre as personagens da Rosi, não poderíamos deixar de falar sobre aquela que mora no quarto da torre mais alta do Castelo Rá-Tim-Bum, a Morgana: “É a personagem que me traz mais satisfação, devido à qualidade, foi um projeto premiado no mundo todo e que formou gerações e gerações, é como uma vila sésamo, um sítio do pica-pau amarelo, são programas que ficam eternamente no ar porque são maravilhosos.”

E prossegue: “Ontem mesmo fui buscar meu neto na escola, tinha um menininho do tamanho perguntando se eu era a Morgana e já faz 20 anos que o Castelo acabou. Quero dizer que uma pessoa com vinte e poucos anos, uma mãe, um pai, todo mundo assistiu, mas uma criança tão pequenininha? Você já está totalmente fora da geração dela."

“O Castelo é encantador e essas coisas são eternas, como o Harry Potter vai ser o eterno Harry Potter.E quando saiu se falava muito que crianças não lêem, e as crianças com os livros de 700 páginas. Não interessa, é quando toca a criança, quando vai para aquele lugarzinho mágico que todo mundo quer ter. Quando as meninas olham para mim, todas querem ser bruxinhas, algumas querem ser princesas. Esse mundo da magia é um arquétipo, é humano, quem souber tocar nisso vai longe, e a J.K . Rowling também soube, prestou um serviço incrível.”

 

Todas as fotos foram produzidas pela fotógrafa Leila Fugii.

 

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Sobre as gerações que assistiram Castelo Rá-Tim-Bum, a atriz comenta: “Existe uma dificuldade da minha geração se comunicar com a geração mais nova, porque eles não estão interessados. Quando comecei no teatro, a gente sempre reverenciava – e reverencia - os que vieram antes de nós. Você não pode fazer uma coisa sem saber o que veio antes de você." 

"Essa moçada de hoje em dia acha que está inventando o mundo, o teatro, o cinema e a televisão. Isso tem mais de 100 anos atrás dessas pessoas para elas chegarem onde estão, então pelo menos reverencie o que veio antes. Falta informação mais profunda, acho que tem muita coisa por fora e o profundo não tem, não. Acho que quem se aprofundar, vai se dar bem, porque viver na superfície, chega uma hora que não vai dar.”

Rosi Campos acredita que mesmo com a abertura de novas possibilidades através da tecnologia, as coisas tendem a ser mais incertas, e conclui: “O que sobra pra gente é continuar fazendo televisão, cinema e teatro, porque é uma profissão que não importa quantos anos você tenha, se você é feia, gorda ou zarolha, você vai trabalhar. Então nós temos essa vantagem de poder trabalhar até o fim; e depende agora dos projetos da gente, por exemplo o que o Antonio Fagundes está produzindo agora [a peça Vermelho, em cartaz no Teatro Tuca].”

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