"Ela é uma feminista, uma precursora"

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Teresinha Soares, Ele tocou as cordas do meu 
coração, 1967

 

Em frente ao trabalho Ele tocou as cordas do meu coração, uma mulher anônima, sem qualquer título ou pose, sorri. Encantada com o que viu (ou sentiu) comenta com outro visitante: "É lindo, não é?".

Logo que se afasta, um casal se aproxima, olha a mesma obra. Durante alguns minutos, esquecem o celular e entrelaçam as mãos. Seus perfis, são homens magros vestidos com camisas de padronagens minimalistas, conversam de forma pouco traduzível com as cores e volumes do mundo da artista Teresinha Soares.

Os trabalhos da mineira -- pinturas, gravuras, cartazes, relevos, objetos, instalações, recriação e documentação de performances e happenings -- estão em exibição no MASP até 6 de agosto

Mais do que uma retrospectiva, a exposição é uma homenagem à artista que, desde à ditadura militar, discutia questões relacionadas aos direitos da mulher. 

Sobre o pioneirismo de Teresinha Soares, O Beijo conversou com a curadora-assistente do MASP Camila Bechelany. No bate-papo, ela falou sobre o reconhecimento tardio e a importância da produção da artista para o debate sobre a presença feminina nas artes visuais. 

 

Camila Bechelany (Créditos: Denise Andrade)

 

O BEIJO:  Por que o trabalho da Teresinha Soares demora tanto para ser reconhecido?  Camila Bechelany: Essa é a primeira exposição dela em um museu, mas já houve várias exposições individuais. O reconhecimento tardio ocorre por dois motivos. O primeiro se relaciona a própria artista. O segundo se liga ao contexto brasileiro.

A Teresinha produziu durante dez anos. Começou aproximadamente em 1966 e foi até 1976. É uma produção intensa, mas reduzida. Nesses anos, ela também fez bastante coisa, participou de duas Bienais de São Paulo, expôs em Belo Horizonte, no Rio. No entanto, logo para de trabalhar. Isso, por motivos pessoais e outros motivos mais interessantes, os quais se relacionam a uma certa resistência ao mercado de arte. Ela nunca se interessou em vender obras. Dessa forma, os trabalhos pararam de circular.

O segundo motivo que tem a ver com o contexto, se relaciona ao fato de ela ser uma mulher produzindo em Belo Horizonte. Que não é Rio, São Paulo. Havia um mercado em Minas, mas era um sistema institucional menos visível que no resto do Brasil. Do resto, eu digo, porque a gente sabe que o sistema de arte é muito concentrado em Rio e São Paulo. Acontecia muitas coisas lá, mas ficavam no contexto regional. Isso também faz com que ela demore para ser reconhecida.

Outra questão é o reconhecimento das mulheres. Quando o visitante vir ver a exposição, vai ver que é uma obra muito interessante, que tem temas feministas. A Teresinha não se considera feminista, tem uma resistência a esse termo, mas na nossa leitura curatorial e de outros críticos, ela tem um trabalho feminista. Ela é uma  precursora. Uma das primeiras  mulheres no Brasil a falar sobre  liberação sexual feminina.  Sobre prazer. Sobre o contato amoroso de forma livre. E acredito que isso também leva ao pouco interesse sobre sua obra, porque o Brasil é ainda um país que aceita pouco a produção feminina. Nós podemos contar nos dedos as mulheres que têm projeção internacional do  trabalho, como acontece agora com ela.

O BEIJO: De que forma a exposição estimula e se insere na discussão sobre os direitos das mulheres?  Camila Bechelany: De duas formas. Uma é que as mulheres vão vir aqui e vão ver o trabalho de uma outra mulher bem representado, ocupando um grande espaço dentro de um museu importante. Isso já possibilita que reconheçam o poder das obras dela. A segunda forma se relaciona com o teor dos trabalhos. Eles falam sobre o corpo da mulher, sobre a maternidade, sobre questões muito femininas, sobre o lugar da mulher na sociedade, sobre a violência. Das duas maneiras, a conscientização está presente. É uma obra política sem ser panfletária.

O BEIJO: Qual a importância das cores e do volume nas obras da Teresinha? Camila Bechelany: É um elemento central na composição formal do trabalho dela. Ela produziu  durante a o regime militar no Brasil. Era um momento em que a Arte Pop estava fazendo um trabalho de resistência política a partir das cores. Das cores vivas, do Carnaval, da alegria. Isso foi uma forma de atuar dos artistas.  Ela era parte dessa geração. O Novo  Realismo Francês é outra influência. A Nova Objetividade Brasileira também. E o volume é uma segunda coisa. Ela começou com pintura. Fazia também gravura. Depois, começou a se interessar por volumes, por esculturas e instalação.  Esses trabalhos podem ser vistos na exposição. São essas caixas-objeto. Esses relevos que vão dando volume pra pintura de forma fatorial.

O BEIJO: Nos últimos anos, a Pop Art brasileira tem sido revisitada. Esse olhar para Teresinha tem relação com esse movimento?

Tem uma relação com o interesse pela Arte Pop hoje. Tanto no Brasil quanto fora do país. Algumas mostras internacionais, das quais a Teresinha participou -- The World Goes Pop na Tate Gallery, por exemplo -- tem uma retomada e uma conscientização de que Arte Pop brasileira era muito política. É uma leitura nova sobre a arte brasileira. Há um resgate disso nesse momento, o que é uma coisa relativamente comum na História da Arte. Movimentos são revistos, ficam esquecidos e depois são valorizados./f

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