"É muito mais importante no teatro ouvir do que falar"

(Créditos: Carlo Locatelli)

 

Isabella Lemos está rumo a conquistar o mundo. A atriz, que já estudou na American Academy of Dramatic Arts em Nova York, e na Mountview, em Londres, agora se prepara para fazer sua estreia na Dinamarca, com a peça A Mais Forte 1 & 2.

A apresentação acontece durante o Festival Internacional de Teatro de Copenhague, e tem a direção do diretor Dinamarquês Soren Hellerup. O espetáculo é a uma junção da peça de August Strindberg, com uma réplica de Dorrit Willumsen, escrita quase cem anos após a primeira versão ter sido lançada.

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A mineira de Araguari, veio ainda nova para São Paulo, onde se formou em Artes Plásticas pela Faculdade Belas Artes. Em paralelo, cursava teatro no Célia Helena Centro de Artes e Educação, até que investiu na carreira de atriz e foi estudar fora.

O Beijo conversou com a atriz sobre a peça, sua carreira internacional e os planos para o futuro. Você confere a entrevista abaixo:

 

Como surgiu a ideia de fazer a peça?

Pelo Soren Hellerup. Ele é um ator e diretor dinamarquês, tem carreira na Europa, já fez filmes em Hollywood, e é um ator muito conhecido fora do Brasil. Ele chegou no Brasil, fez vários filmes, séries, fez o novo filme sobre o Bozo, fez filme do (Hector) Babenco (“Meu Amigo Hindu”),ele  fez muita coisa, trabalha bastante.

Mas ele tinha um sonho de começar a dirigir, e veio para o Brasil, onde ele conheceu o meu trabalho,ele assistia as minhas peças, e conhecia o trabalho da Adriana Lessa também. O Soren tinha uma vontade muito grande de montar um texto escandinavo, que é o A Mais Forte do August Strindberg, que é um clássico, escrito em 1889. Esse texto se tornou um clássico porque só uma das mulheres fala, a outra só escuta. E na época foi um texto revolucionário, é um texto muito conhecido no meio teatral, muito bem escrito, Strindberg é um grande autor, um dos maiores que já existiram. Quem faz a personagem que fala no clássico, sou eu e a personagem da Adriana Lessa, faz a que apenas escuta.

Como é uma peça curta, tem um outro texto, da Dorrit Willumsen, que é uma dramaturga dinamarquesa, ainda viva. A Dorrit escreveu em 1978, ou seja, quase cem anos depois, a réplica dessa outra mulher que fica calada; ela vai falar. É a mesma situação, ela chega em um café, e a personagem da Adriana ta sentada, eu chego no café e falo com ela, e falo, falo, falo, falo, falo, e ela só escuta. Ai tem a segunda A mais forte que a gente chama de A Mais Forte II, e o legal é que as peças dialogam entre si, a de de 1889 e a de 1978, na qual quem fala é a Adriana Lessa, e eu sou a personagem que escuta.

 

A Mais Forte I, escrito em 1889 por August Strindberg (Créditos: Kika Silva)

 

Qual é o maior desafio na primeira peça, de conversar com alguém que não replica o que você diz?

É um texto que eu sempre tive vontade de fazer, o texto do Strindberg, um autor pelo qual eu sou apaixonada. É muito interessante, é quase como se fosse diálogo, porque embora ela não fale nada, as reações dela são muito importantes para a maneira a qual eu vou devolver a fala. 

É muito mais importante no teatro ouvir do que falar, ás vezes a pessoa te responde de uma maneira, e você tem que responder de acordo com aquela maneira, senão é um teatro muito técnico. E o meu exercício nesse caso, é estar muito atenta às reações da Adriana, porque são as reações dela que vão dar o tom da minha próxima fala, isso é muito bacana, porque é como se fosse um diálogo no qual ela não fala, mas ela se comunica pela linguagem corporal, pelos movimentos, pelos olhares, pela respiração, pelas emoções.

E pra mim, o grande desafio é quando eu só escuto, que é justamente ouvir o que ela falar, e deixar bater, para vir essa emoção ou essa raiva, tão verdadeira, para que ela também possa devolver no tom correto, do momento, da cena.

 

Qual é a sua versão favorita, “A Mais Forte” de 1889 ou a de 1978?

Eu acho que as duas juntas são incríveis, porque elas tem quase cem anos de diferença. É muito legal porque a peça do Strindberg foi escrita por ele, que é um homem, e quem deu a voz, na réplica é uma mulher. Então você vê que é o pensamento de um homem, por trás daquele texto, e na segunda você vê uma mulher dando voz para aquela mulher, que não teve voz naquela outra peça.

Eu sou fã do Strindberg, mas eu me tornei uma grande fã da Dorrit Willumsen, que também é uma grande dramaturga, é viva, contemporânea, não dá muito para comparar porque os textos dialogam entre si, mas são autores de épocas diferentes, estilos diferentes. Então o teatro também é um pouco diferente, por exemplo, na peça que se passa em 1889, a nossa expressão corporal é diferente, a maneira de falar é diferente, o texto é diferente, é um pouco mais rebuscado.

Na segunda peça, em contraponto, é um texto falado de maneira mais coloquial, o nosso corpo é mais naturalista. Ambos são muito bacanas, mas são diferentes para falar que um é melhor do que o outro, porque são diferentes no estilo, a junção dos dois é sensacional.

 

A Mais Forte, escrito em 1978 por Dorrit Willumsen (Créditos: Kika Silva)

 

A peça será apresentada em inglês?

Não, vamos estrear em um festival de grande prestígio na Europa, e fomos convidados pela Ala responsável pelo teatro internacional, então significa que a podemos apresentar a peça em português, e teremos legenda em inglês e dinamarquês.

Qual a expectativa da recepção da peça na Dinamarca?

Temos um diretor escandinavo, uma peça sueca e duas atrizes brasileiras. Acho que dá um frescor forte ter um diretor dinamarquês que está nos orientando dentro do que ele quer, e dentro do que ele vê em ambos os textos.

Acho que por sermos brasileiras,  jogamos uma luz diferente sobre o texto. Porque é uma peça que já foi feita de tantos maneiras diferentes, por ser um clássico, e pegar duas brasileiras e levar para lá, dá um frescor para a peça. E eu sou uma atriz branca, a Adriana é uma atriz negra, eu acho maravilhoso a escolha dele do elenco, porque ele escolheu as atrizes que ele achou que fariam melhor cada papel, porque na época provavelmente eram mulheres brancas que faziam os papel, o que também leva o público a refletir. Eu acho muito bacana, ele fala “eu escolhi as melhores atrizes para fazerem as personagens, porque vocês são as melhores atrizes para fazerem essas personagens”. A questão de ser branca, de ser negra, de ser índia, de ser chinesa... É uma coisa que não vem ao caso, até porque é uma montagem feita em 2017, e é uma peça de teatro, ela não tem essa pretensão de querer representar o verídico, como tem que ser, então não é o caso.

 

(Créditos: Carlo Locatelli)

 

Não é a primeira vez que você se apresenta fora do país, pode nos falar mais sobre a sua carreira internacional?

Eu já estudei no American Academy of Dramatic Arts in Nova York, também estudei na Mountview, em Londres, então eu tive uma experiência fora do Brasil, mas atuando em inglês. É a primeira vez que eu vou para um festival de tanto prestígio, uma peça profissional com produção brasileira, mas com olhar escandinavo.

A gente tem uma responsabilidade muito grande, porque eles vão ver uma coisa que eles conhecem muito bem, então a gente tem uma responsabilidade e uma vontade muito grande de que eles consigam ver essa luz diferente que a gente jogou sobre as personagens. Estamos muito felizes, porque é um festival onde os melhores grupos europeus vão estar lá, nós somos os únicos brasileiros que vão participar do festival. Na estréia, a Dorrit Willumsen, que ainda é viva, vai estar presente, é incrível. A gente ta muito feliz.

Vocês tem intenção de trazer para o Brasil a peça?         

Sim, nós queremos estrear no segundo semestre. Depende das três agendas, mas como são só três pessoas, é uma coisa mais tranquila. Mas ainda não temos datas e teatros confirmados.

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