Conheça Ricardo Martins, fotógrafo especializado em aves

(Créditos: Divulgação)

 

Você já se pegando admirando uma foto de natureza do National Geographic e perguntando quem poderia ter tirado aquela foto? Talvez a foto em questão seja do fotógrafo brasileiro Ricardo Martins.

Há mais de dez anos, o fotógrafo e jornalista se dedica a fotografia de natureza - tarefa difícil, pois segundo Ricardo, um dos objetivos é sempre passar emoção e mostrar a expressão do animal fotografado. Para isso utiliza muito imagens com movimentos corporais, cores e formas tendo como cenário o ambiente em que cada espécie vive. 

O fotógrafo já publicou sete livros, incluindo Riqueza de um Vale, que lhe rendeu um prêmio jabuti na categoria fotografia. O livro mais recente, Birds of Brazil conta com registros de espécies típicas do Pantanal, Amazônia, o Cerrado e da Mata Atlântica.

O Beijo conversou com o Ricardo sobre os desafios de fotografar pássaros, as belezas da fauna e flora brasileira e preservação da natureza. Confira abaixo:

 

Como você começou a fotografar pássaros?

Os pássaros na minha vida foram bem importantes. Estou lançando o meu sétimo livro, o primeiro livro foi sobre aves (Encanto das Aves), que eu lancei em 2009, então na verdade foi esse livro que me jogou no mercado editoral. Eu queria fazer um projeto daquilo para poder mostrar o meu trabalho para o mercado, não sabia o que fazer e uma ave que me inspirou muito foi a Saíra-Sete-Cores, que eu vi uma vez na mata e achei lindo, é um pássaro pequeninho com sete tons de cores diferentes. Fui pesquisar sobre ela, descobri uma variedade enorme de aves coloridas na Mata Atlântica, e me veio a ideia de fazer esse primeiro projeto.

Eu sou fotógrafo de natureza, não sou fotógrafo de arte apenas, mas como eu vi essa variedade toda de aves, achei que um livro desses iria ficar muito lindo. Montei uma apresentação com umas aves bem chamativas e a empresa que patrocinou na época, disse que eu consegui chamar atenção por isso, um livro colorido com bastante aves, eles achavam que isso ia ficar muito bonito, acabaram patrocinando esse projeto e foi o livro que me jogou no mercado. Então a partir dele deu certo e eu comecei a fazer os outros.

Quanto tempo você passou fotografando o último livro?

Uma editora me procurou e perguntou qual tema eu achava interessante para um livro, e eu sugeri o tema aves. A gente fez uma coletânia dos últimos seis anos de viagem que eu tive pelo Braisl, então você vai achar aves da Mata Atlântica, do Pantanal, da Amazônia, do Cerrado. Tem uma variedade bem bacana, muita história legal de aves. Este é um mercado muito legal, o de aves, tem bastante comprador, muita gente interessada e me veio a ideia de fazer esse projeto.

 

(Créditos: Divulgação)

 

Qual foi o lugar que você mais gostou de fotografar?

Nossa, é difícil. O Pantanal é um lugar pra mim que eu acho delicioso, uma cultura e luz... Mas eu acho que um lugar que deu uma dimensão que eu achei demais foi a Floresta Amazônica, no (rio) Araguaia. Eu passei treze dias subindo e descendo esse rio, e fiz umas fotos muito bonitas. Tinha aquele entardecer que era uma coisa de outro mundo, aquela coloração dourada absurda, e isso você no meio da floresta, me emocionou muito.

Você já fotografou pássaros fora do Brasil?

Ainda não. Uma história engraçada é que uma vez eu estava no Irã - cheguei no inverno - fiquei em um apartamento a principio, e a primeira coisa que eu vi no Irã foi uma ave, que era uma gralha, bem bonita. É bem comum para eles, era super bonita. Ela me chamou muita atenção para fotografá-la, mas não consegui. Eu estava fazendo outro trabalho, mas ela ficou muito na minha memória.

Qual é a importância de se ter um livro com as aves brasileiras?

Eu acho que você mostrar qualquer tema, sejam aves, seja uma paisagem ou qualquer outro bicho, é o que eu sempre falo, se você quer chamar atenção para alguma causa que está acontecendo ou até despertar na pessoa essa conscientização de preservar, de cuidar, coloca uma fotografia bonita, chame atenção para o seu artigo.

Seja uma ave do cerrado ou uma onça pintada, ou uma piranha que está ameaçada de extinção, algo nesse sentido, em vez de colocar aquela fotografia de registro, coloca uma foto, por exemplo, dela no pôr-do-sol, com uma luz bonita, lambendo um filhote dela, uma foto bonita. Ai você vai chamar a atenção das pessoas para aquela causa.

O ser humano é muito visual, o brasileiro principalmente, então chame a atenção pela beleza e ai você vai mostrar o que está acontecendo. Eu acho que os livros seguem nessa linha. Você pega um livro como o Birds, por exemplo, começa a olhar paras as fotografias e pensar “Que linda essa arara, cara. Onde será que ela tá? Ela está no Tocantins? Ela está ameaçada de extinção?”, gera um sentimento de cuidado, e o pessoal percebe que se essa ave for extinta vai causar todo um problema naquela região, e aí a coisa vai.

Eu acho que você chamar a atenção pela beleza através desses livros é o comecinho desse caminho para a pessoa começar a entender. O Birds é um livro de arte, é um livro decorativo, as pessoas usam muito para decorar as casas, mas ele tem uma importância bem maior do que isso. É chamar atenção para as pessoas saberem o que precisa ser preservado, não só porque é bonito mas porque isso realmente vai influenciar na vida de todo mundo, vai influenciar na sua vida, na minha, na de todo mundo.

Você já trabalhou antes com biólogos. Isso influencia a sua visão como fotógrafo?

Eu trabalhei com bastantes biólogos e pesquisadores, eu sou formado em jornalismo. É muito engraçado porque eu já fiz livros com biólogos, e geralmente eles são responsáveis pela certificação das aves e de colocar o nome cientifico, e muitas vezes viajam comigo também.

E aí acontece o seguinte, a visão do pesquisador, do biólogo é muito o que eu falei. Não importa se o bicho aparece na sua frente e o fundo ta feio, ele quer fotografar aquilo do jeito que ta porque ele quer essa pesquisa, é importante para ele fazer aquilo. Já a minha visão, a visão do fotógrafo que é essa parte mais artística, pra mim já não. Eu quero o bicho com uma luz bonita, uma posição bonita, ele se expressando da maneira que ele fica naturalmente alí...

Eu lembro de uma cena em que eu estava viajando com um biólogo e pousou um pássaro na minha frente, pula pra cá, pra cima, pra baixo e eu não bati nenhuma foto dele. E ele do meu lado desesperado por que eu não tinha conseguido uma foto dele e era um pássaro raro, que foi embora. E ele falou “Pô cara, por que você não tirou uma foto?” e eu falei “Não tinha luz” (risos).

Então são visões completamente diferentes. Já na hora que eu sentava de noite e mostrava como era o meu trabalho, ali eles entendiam o que eu queria. Então você conciliar essa coisa de aves raras com a beleza, eu sempre busco essa parte mais artística, para mim não interessa se o bicho é raro, se não é, ou se ele vai estar de perfil, de frente, que é mais fácil de identificar. Eu quero fazer uma coisa bonita, quero fazer uma arte com aquilo ali que eu estou vendo na minha frente.

 

(Créditos: Ricardo Martins)

 

Quando você estava no Rio Paraguai você enfrentou uma tempestade e mesmo assim você conseguiu fotografar dois Tuiuiús.  Você pode nos contar como foi?

Foi. Eu sai com o barqueiro naquele dia, daí a gente pegou um barquinho de alumínio, que a chamamos de voadeira e saímos para um lugar no Paraguai que era bem longe. Tava um dia super bonito, tranqüilo, de sol, bem bacana e aí comecei a fotografar.

Daí ele  desligou o motor e fotografei. De repente começou a ventar um pouquinho, mas para mim até então nada de preocupação, mas para ele que conhece a região, já parou e falou “Ó, vamos embora que vai mudar o tempo e vai ficar feia a coisa aqui”, eu falei “tem certeza?” e ele “tenho certeza, vamos embora”. Eu só escuto, não tem como discutir.

Daí começamos a voltar devagar. De repente virou o tempo de um jeito, era uma tempestade de vento, não tinha chuva. Aí começou a ventar, ventar, ventar, eu só lembro daquele dia que estava calmo e subiu umas ondas, batendo no barco. Virou completamente o dia.

Quando nós estávamos voltando, e eu tava protegendo a câmera, comecei a ver as aves. O Tuiuiú é uma ave bem grande, tem quase um metro de altura mais o menos, e tinham dois com a asa aberta, e os dois brigando e era lindo, porque tinha o reflexo do sol naquelas ondas que estavam formando no rio, estava um reflexo bonito e foi uma cena super bonita.

Aí eu falei para ele, “Você consegue parar um pouco?” e ele “Não, não, não dá pra parar”, “Ah um pouquinho só, cara. Olha a cena que eu to vendo”, e eu não conseguia levantar a câmera na hora. E ele diminuiu um pouco para eu tirar a câmera, porque não podia parar o barco. E aí consegui apoiar um pouco a câmera na minha perna e fiz essa fotografia, que ficou em preto e branco no livro e são dois tuiuiús com a asa aberta lutando, e você vê toda aquela textura da água com o sol batendo. E a região do Pantanal é fantástica, é uma foto que me marcou bastante, eu gosto muito dela.

Você acha que o seu livro pode ser uma forma de resistência nesse contexto atual em que temos um decreto que ameaça as reservas da Amazônia?

Eu acho que sim, qualquer manifestação em prol da natureza, que você consiga levar informação para a pessoa que está sentada na casa dela ou escritório, é sempre válida. Eu acho que através de um livro que uma pessoa ganha de presente, e não estava esperando e começa a olhar aquilo ali, quando escuta uma notícia dessas na televisão e ta com aquele clima do livro, acabou de ver aquela natureza toda bonita, aquilo vai chamar mais atenção, vai entrar mais na cabeça dela.

E aí vai procurar entender um pouco mais o que está acontecendo, e se conscientizar, criar abaixo-assinado ou algo do tipo, você cria mais força. Qualquer forma de você levar para as pessoas a natureza eu acho que é sempre válido, fica uma coisa do tipo “Olha, tem alguém fazendo isso”.

  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
  •  (Crédito: Ricardo Martins)
    (Crédito: Ricardo Martins)
    Comentários
    Escola Entrópica no Instituto Tomie Ohtake Museu de Arte Moderna de São Paulo