7 artistas lésbicas para acompanhar: Marcela Tiboni (6/7)

                                                               Qual é o espaço especulativo que temos para construir                                                                                                                      novas possibilidades de ser?

 

Ainda paira a ideia  da existência lésbica estar aprisionada a não realização sexual plena com homens, pensamento vinculado a ideia da centralidade do homem e tudo o que vem carregado com a construção da masculinidade, de que tudo gira em torno de ti e de teu falo. A mulher nasce e cresce, não para se construir plena e auto-suficiente, com direito ao menos de conhecer multi-coisas antes de poder de fato escolher o que ser e o que quer. 

Outra ideia falociosa que ainda paira é a de que lésbicas querem ser homens. É mais uma vez vincular a construção da subjetividade lésbica tendo como centro o masculino.  Pelo contrário, a lesbiandade se propõe a ser um espaço possível de formulação de subjetividades de forma autônoma/compartilhada com outras lésbicas. 

Indo mais longe dentro dessa forma de entendimento errônea, a ideia de que lésbicas querem ocupar o lugar dos homens, fere-lhes a masculinidade a tal ponto destes atribuírem mais uma camada de perversidade no estupro que justifique tal ação. Estupro-corretivo. A ideia de que lésbicas possuem algum tipo de falha, desvio de comportamento por não se relacionarem com homens e com a feminilidade imposta e que para se ajustarem perante a norma, tais mulheres precisam ser estupradas.

Ter um espaço especulativo, utópico,  de experimentação é ter um espaço para a autocombustão, para energia que de dentro se manifesta. 

 

                                                                                   ***

                                                                 MARCELA TIBONI

 

Em 2015 ganhei um saquinho de bonequinhos de guerra de plástico, dois exércitos – um verde outro marrom. Desde pequena este tipo de brinquedo me encantava, criava cenas e situações de guerra entre exércitos, e inúmeras narrativas, mas pouco tempo depois de ganhar este saquinho e me encantar com ele parei para perceber que não havia uma boneca se quer.

Apenas homens vão para a guerra? Apenas meninos brincam com bonecos de guerra? Boneco é de menino e boneca é de menina? Bonecos são de guerra e bonecas fazem funções da casa?

Comecei a mudar o gênero das bonecas, colocar seios, aumentar as coxas, alongar seus

cabelos, afinar suas cinturas. Me intriga esta divisão de gênero social, os papeis, as generalizações, as imagens que criamos para cada personagem social. E inverter isso, de forma simples, causa um choque tão profundo no olhar.

 

 

É artista, educadora e pesquisadora. Atualmente é Diretora Cultural da empresa Acontemporanea Cultural onde realiza curadorias, curadorias educativas, formação de mediadores, oficinas e palestras.

O arsenal surgiu em 2013, quando eu comecei a ficar muito curiosa sobre as ferramentas de

“meninos” (furadeira, serra tico tico, lixadeira elétrica, serra de corte) com pedaços de madeira que encontrava na rua comecei a construir uma metralhadora (também brinquedo de menino). Não mostrei o arsenal para ninguém ao longo de um ano, fui construindo pouco a pouco revolveres, canhões, metralhadoras, silenciadores, misseis, depois de 12 meses eu tinha uma coleção de cerca de 20 armas. Na ponta colocava rojões, morteiros, estalinhos,

sinalizadores, e toda a sorte de fogos de artifício comprados em uma loja. Queria que o arsenal tivesse vida, sugerisse medo, explosão, barulho, ao mesmo tempo que fosse sedutor. Porque era exatamente a sensação que eu tinha ao construir o arsenal em meu ateliê, medo/sedução. Rapidamente quando o trabalho começou a ser exposto me deparei com a estranheza do público, colecionadores e curadores que achavam que eu artista era um homem, afinal era um trabalho de homem e não de mulher. Isso me intrigou e ainda me intriga, o que é um trabalho com “cara” de mulher ou de homem? A violência tem gênero?

 

Nascida em São Paulo, Capital em 1982, Marcela é bacharel em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP (São Paulo, SP, 2003), mestre em Estética e História da Arte pelo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - MAC-USP (São Paulo, SP, 2009), e pós-graduada em Gestão Cultural pelo SENAC (São Paulo, SP, 2015).

                                           

 

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