Sobre Tunga e os mourões

7 junho 2016

Ali por meados dos oitenta Tunga apareceu na ampla sala do apartamento de seu pai, em Copacabana. Seus cabelos, lisos e compridos, mais ou menos divididos no meio da cabeça, caíam nos ombros e lhe davam um ar de cherokee digital. Magro, olhos escuros estalados no meio da noite, vestia algo assemelhado a uma bata, de gola careca; falava rápido e num tom baixo: - Então, você é o amigo que meu pai tanto fala - disse, e me abraçou. Nunca mais deixamos de ser amigos.

Tunga (Créditos: site do artista)

Seu pai era o lendário poeta Gerardo Mello Mourão. Naquela época, voltava da China, onde fora correspondente da Folha. Os despachos de Gerardo brilhavam ao lado de textos de Paulo Francis, de Nova York; Claudio Abramo, de Paris e Londres; e Osvaldo Peralva, de Tóquio. Sacou a briga de estrelas? Gerardo logo me adotou e me transformou em seu cicerone na pauliceia. Minha tarefa era descobrir novos restaurantes japoneses pela cidade, e contar causos.

Casado com Léa, filha do poderoso senador Antonio de Barros Carvalho, Gerardo, nascido no sertão cearense, fora deputado federal, fundador de vários jornais, e se transformara por conta de sua obra e militância política em cidadão do mundo. Estabelecera uma imensa rede de amigos poetas e políticos ao redor do planeta. Cultivava também bons adversários. Aquilo tudo me fascinava: tinha segredos de polichinelo de personagens distintos como Michel Deguy, Pablo Neruda e Leonel Brizola.

Por vários anos, o senador Antonio Barros dera abrigo (casa, comida e roupa lavada) ao amigo Guignard. Em agradecimento, o doce artista mineiro tratou de pintar o casarão da família, na rua România, no bairro carioca de Laranjeiras. Tetos, portas e algumas paredes foram cobertas por suas cores amenas e cenas cotidianas. Também registrou as filhas do senador numa tela clássica, as gêmeas Maura e Lea, mãe de Tunga, que vai citar o caso na sua série, hilária, Xipófogas capilares, da década de 1980.

Então, embaixo do prosaico apelido de Tunga escondia-se o nome heráldico de Antonio Jose de Barros Carvalho e Mello Mourão. Um disfarce. Tanta política, arte brasileira e funda tradição nordestina, vinda da colônia, mais certa distinção próxima ao rapapé, soavam a ele peso desproporcional diante de seu projeto em construir uma obra desterritorializada, não imbricada com regionalismos ou cepas nacionalistas. De Gerardo herdou um fino humor, sofisticado, ao qual acrescentou um gosto pelo chiste e a construção permanente de irrealidades.

Tunga visto através de uma de suas obras 
(Créditos: arquivo pessoal)

 

Isso no Brasil? Um país jovem mas talhado pela desigualdade social na falsa sisudez da república de doutores? É demais para essa terra um artista que se recusa a tecer um trabalho que não tenha por base a realidade imediata e azeda. Como ousa?

No DNA estético-ideológico pátrio se encontra o desenho da arte como registro, reprodução e, muitas vezes, acentos regionais. Se fosse assento seria mais útil… Assim o que possui caráter internacionalista, no Brasil, é posto sob suspeição. É pau, é pedra, é o fim do caminho.

Talvez venha daí a maior repercussão da obra de Tunga em terras estrangeiras: nos últimos anos foram várias as mostras dele em cidades europeias e americanas. Ele sempre fez um trabalho pertencente ao mundo, a partir de referências colhidas na especificidade dos materiais, por vezes em suas próprias excentricidades (cabelo, ossos, barro etc), no lúdico, e solidamente amparado numa visão filosófica da arte. Porque sempre teve uma sede exuburante pela vida.

Aí que está. Nestes últimos tempos, trocando ideias para o nosso documentário, percebi como Tunga construía sua poesia calcado em universos distintos, quase intangíveis, e num diálogo com a natureza primeva. Numa imagem, o osso que sobe em 2001 de Kubrick e sob Wagner se transforma numa espaçonave. De primatas a astronautas, glosando Mlodinow.

Na construção do roteiro do nosso filme, senti como Tunga sacava conceitos oriundos da física, da química, de fenômenos geofísicos, da linguística e da filosofia para alicerçar seu pensamento. A todo esse coquetel adicione-se ainda sua picardia e sobretudo sua elegância ao desprezar os temas pedestres do cotidiano. É só olhar em volta e cotejar como ele fará falta.

 

Miguel De Almeida dirige no momento o documentário Tunga e as aventuras cabralinas.   

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