Só acaba quando termina

16 dezembro 2016

Ao que tudo indica, a classificação ideológica de esquerda e direita interessa principalmente aos intelectuais com atuação no Facebook. E a um ou outro artista desejoso pelo marketing de promoção para sua nova obra (“Aquarius, teu nome é Solaris”). Durante os anos duros da ditadura militar, quem não dançasse seguindo o miudinho ensaiado pelo Partidão, até sorrir com dentes à mostra poderia soar como gesto de adesismo ao regime. É, por aqui a vida nunca foi fácil.

Há quem garanta que essa visão entre o estrito certo e o radical errado seja sinal de atraso intelectual. Ou pobreza verbal. Por um bom tempo o mundo brasileiro se dividiu entre a higidez política de Chico Buarque e o naturalismo de Caetano Veloso. Chico falava por metáforas — “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”; Caetano, por insinuações — “Deixa eu dançar, pro meu corpo ficar odara”. E havia ainda Gil, que falava... à la Gil, mesmo — “O luar, a gente precisa ver o luar”. Quem ousasse optar pelos baianos, em detrimento de Chico Buarque, estaria frito em dendê: era de direita. Simples assim. A vida seguiu, e hoje Caetano e Chico tocam o mesmo tatibitate, o que nos leva a Machado de Assis: mudou o Natal ou mudamos nós?

O passamento do último Fidel Castro provocou outro frisson entre os web ativistas e os blogueiros de alforje. De novo, a mídia surgiu no papel de golpista e de direita por nomear o cubano como ditador, como se houvesse ditador do bem. Um ex-ministro petista chegou a relevar os assassinatos castristas em nome da necessária revolução. Acabou por ficar ao lado dos fascistas espanhóis que mataram García Lorca por ser homossexual. Quem apoia o assassinato em nome da causa é de esquerda?

No longo périplo funerário de Fidel se encontraram vários líderes políticos, entre eles Evo Morales, presidente da Bolívia. Morales é o mais bem-sucedido dos governantes latinos identificados com a esquerda populista. Cris Kirchner, Nicolás Maduro e Dilma Rousseff enfiaram suas respectivas economias num descalabro de baile de máscaras. A Bolívia de Morales, não: teve um crescimento rotundo de cerca de 5% de 2011 a 14. O curioso é que o discurso de inclusão social vertebrado pelo governante se encontra ancorado numa política econômica, de controle de gastos públicos, capaz de deixar Milton Friedman morrendo de inveja. A política fiscal do bolivariano Morales faz a voz grave de Henrique Meirelles e sua PEC do teto soar como um castrati da corte de Fernando VI. Daí então Morales é de esquerda, e a tal PEC do Meirelles é de direita?

Em “Ópio dos intelectuais”, o sociólogo Raymond Aron analisa a queda francesa pelos gestos revolucionários, pelo radicalismo voluntarioso e depois a ressaca curada no colo de governantes imperiais — Napoleão e De Gaulle, dois bons exemplos. Do outro lado do canal, os ingleses e sua toada reformista, com poucas rupturas atordoantes. O trabalhismo britânico sucedeu ao vitorioso Churchill no Pós-Guerra e produziu reformas ainda hoje emblemáticas no universo social, a começar pelo sistema público de saúde e de educação. O trabalhismo inglês, por ser reformista, é de direita?

No Brasil das redes sociais, qualquer reforma é vista como de direita quando não praticada pela esquerda. É curioso. O PT, no governo, promoveu a maior expansão do ensino privado brasileiro. O ensino público estaria rindo de boca a boca, como ficaram os empresários da área, caso tivesse recebido tamanho apoio financeiro. O ensino privado é de direita por que agrada ao mercado ou, de novo, o Brasil colocou o ovo de pé ao forjar o mercado de esquerda?

 


Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, hoje (16/12).

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