Simbad e a des-colonização do imaginário

18 abril 2015
Rodrigo Matheus e Ronaldo Aguiar no espetáculo "Simbad, o navegante" (Créditos: Paulo Barbutto)

 

Bambu é bambu, quando pau é pau, pedra é pedra e um mais um é igual a dois. Mas na montagem de Simbad, o navegante, do grupo Circo Mínimo em cartaz no Sesc Pompéia, pau é pedra, e bambu é elefante, quando um mais um tende ao infinito.

De um lado, o palco: dois atores, Rodrigo Matheus, também dramaturgo do espetáculo, e o palhaço, bai­la­rino e também acro­bata Ronaldo Aguiar, sob direção de Carla Candi­Otto, juntamente com feixes de bambus, sonorização e iluminação prontos para contar as histórias de Simbad. Do outro lado, a plateia e o sempre enigmático público. Aqui pau ainda é pau, pedra ainda é pedra, um mais um ainda é dois e bambu ainda é bambu.

Abrem-se as cortinas e o palco já não tem os limites de palco, o bambu já não é bambu e a cena faz um convite ao espectador a fim de exercitar sua imaginação. Em jogo, os experientes atores montam e desmontam estruturas construídas em bambu e a cada nova montagem, um novo cenário e um conjunto de personagens se apresentam.

A estrutura é sempre a mesma, um conjunto de bambus amarrados com cordas e borrachas, mas as configurações de cada montagem nos levam a viajar, a cada momento, em diferentes embarcações e atracar em distintas ilhas e reinos encantados. Os bambus se transforma em coqueiros, lunetas, caravelas, elefantes e se desdobram a cada instante. Um exercício vital ao carente imaginário que por vezes se apresenta atrofiado pelas imagens técnicas que o devoram.

Cotidianamente o fluxo comunicativo contemporâneo se estabelece através de imagens prontas. Email, whatsapp, facebook, youtube, twitter! Xeque mate!!! As imagens são rápidas, as informações são sintéticas, objetivas. Nada pode desviar suas setas do tão prezado alvo: o consumo. Touché!!! E lá se foi o imaginário.

Sem tempo para assimilar as narrativas, que não àquelas das correntes da cultura dos mercados, o imaginário se atrofia nas senzalas e calabouços da colonização mundial. Se és pedra, serás sempre pedra e permanecerá pedra consumindo pedra pelos poderes do Capital. Assim caminha e se acorrenta a humanidade. Ó poderoso Zaratustra por onde andará sua vã filosofia? E agora quem poderá nos ajudar? “Eu! Simbad o navegante!” e o desbravador exercício do imaginário por terras descoloradas! Ou diria descolonizadas!?

Sim! Em Simbad, o navegante somos convidados a exercitar nosso potencial imagético de criação, rompendo as fronteiras pré-estabelecidas pela normalidade cotidiana, nos levando a voar nas asas de imensas aves encantadas  e poderosas embarcações! Devaneio, onirismo, encantamento e comicidade. Atividades naturais da expressão humana, amarradas cotidianamente pelos nossos nós de gravatas.

- Ó, não me venha com chorumelas! Aqui falamos de coisas fundamentais! De coisas filosóficas! Da escrita linear e do brilhantismo das idéias!

- Quanto valor a uma dupla de palhaços! Diria um homem cinza enquanto amarga seu café com tabaco no fundo das olheiras.

Se o brilhantismo das idéias em linha reta nos aprisiona às possibilidades cotidianas em cadeiras de turnos de oito horas, nos enrijecendo os paletós e saltos altos, Simbad nos liberta nas gargalhadas e nos vitaliza na infinita possibilitada de exercício do imaginário.

O palhaço como mago tem na maga a carta do riso, fazendo brotar na boca do estômago uma flor que passa pelo coração, brilha nos olhos, escorrega na boca e explode no encantamento do corpo em gargalhadas. Aqui o corpo volta a ser corpo e celebra sua existência em festa. O estado de ser criança volta novamente à cena e viaja como marinheiro em sua infinita jornada.

Até a próxima, navegantes!

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