Sagrada Geometria

19 setembro 2016
Rubem Valentim

 

Quatro olhares de mestres riscam verticalmente o definitivo mapa da sensibilidade e inteligência estética do Brasil:

- a presença poética e lírica da alma brasileira nas sutilezas pintadas por Guignard, que se amplia, antropofágica, inventiva e liberta em Tarsila, que é intuitivamente repensada nas purezas geométricas de Volpi e redimensionadas no sentir espiritual e arrojado da inconfundível escritura universal de Rubem Valentim.

São essas quatro vertentes a base para solidificar o moderno e traçar direções mais seguras para afirmações das poéticas contemporâneas.

Rubem Valentim, nascido em 1922 – quando os antropófagos faziam sua semana moderna – ao concluir sua obra com apenas 69 anos, deixa o precioso legado de sua obsessiva e virtuosa vontade de realizar seu virtual projeto construtivo:

- descobrir na geometria do sagrado os sentidos mais transcendentes do estético;

-encontrar, com incomum rigor, a cor que não é só pele da matéria mas pura imanência;

- usar as cores para desenhar os vigorosos gráficos das pulsações kitônicas no tambor da tela, vibrando “pontos” que nos impulsionam além dos limites do olhar;

- saber da existência de outras dimensões invisíveis, ao dar corpo sensível ao imaterial;

- compreender que era preciso uma apurada forma de pensar, sentir e sonhar uma realidade paralela;

- acolher o místico e o mítico através do mistério iniciático da Criação, e pela sugestão tátil de quase tocar o extra-sensorial;

- perceber que, por tudo isso, havia aura e ânima no ser do objeto.

Só assim, e a duras penas, pode transformar-se num exímio geômetra dos deuses, compondo peças para um mesmo infinito holograma, onde “O um é o Todo e o Todo é o Um” do koan mestre zen-budista Sôsan.

Nele, este Todo e suas faces-máscaras gravitam e gravam no mesmo intrigante espelho da arte. Para mirá-lo, precisou convencer-se, no final da vida, de que não haveria sofrimento em fazer arte, ao deixar de lado o usual ego artístico. Sem ele, teria a definitiva segurança de que era um predestinado artificie e sacerdote das infinitudes e amplitudes do Eterno.

 

Um dos trabalhos de Rubem Valentim exibidos na galeria Berenice Arvani (Créditos: Divulgação)

 

Desenhar esse sonho ancestral, era perseguir mais do que uma crença: Valentim queria libertar-se, fazendo arte. Proclamou, às vezes indignado no deserto sem muitos ideais dos brasileiros, a exatidão de suas originais ideias didaticamente bem explicitadas em seu “Manifesto ainda que tardio”. Nele expunha suas inquietantes maneiras de pensar uma arte brasileira sem bater cabeça para os “santos” internacionais e sem o ridículo da rasa xenofobia. Viver esse Manifesto à risca e pondo em risco amizades e oportunidades foi sua profissão alquímica de fé.

Em nossa última conversa, mostrava-se plenamente consciente de que tinha frustrado, em muito, sua vocação sacerdotal de vislumbrar e envolver-se mais com sentido espiritual da arte. Mas considerava-se um resignado perante as artimanhas dos desígnios cósmicos: o Divino nele “encomendara” uma obra única realizada em cinco décadas de obras de arte impares. Restava-lhe cumprir com afinco e compaixão, pela sua real natureza, o inspirado pedido mais que Divino.

Resta a nós, perplexos e sós pela sua ausência, contemplar uma herança que nos aponta sempre solene, os deuses humanos do futuro. Para estes seres ainda nus e desvelados, nós, criou com precisão pinturas que se fizeram gravuras, relevos que se tornaram painéis, esculturas e objetos. Os “emblemas poéticos” de simetrias perfeitas: retábulos, nichos, altares onde guardamos o mais sagrado em nós mesmos.

Mais do que evocações religiosas, são afirmações concretas de um projeto construtivo feito com a geometria do sensível e do sincero. Foi concluído com dignidade, inteireza e sacrifícios que ele transmutou em sacro ofício assimilado em grande parte na solitude. A mesma que o pôs diante do mestre de si mesmo, a trancos e barrancos, num auto-conhecimento que tanto ambicionava e que lhe mostrou a única realidade: chegar à compreensão do que era a Fonte e a força do Todo.

Pulsar o ritmo da energia contida e expandida do cosmo era para ele contraponto ao caos, provação e graça na busca da eterna arte de ser. Acreditava, então, que estava na transcendência e no equilíbrio dos contrários – o “caminho do meio” sobre o qual se instruiu meditando com o Bhagavad Gita, ou bebendo da sabedoria taoísta e zen-budista – o verdadeiro instrumento que o Divino coloca a serviço do livre-arbítrio. Sabia que o ser humano é a criatura-artista que redimensiona a energia da criação universal e faz, do viver e do morrer, arte.

Valentim tinha mais do que uma consciência lúcida, sabedora do valor de sua experiência estética não plenamente reconhecida. Nisso também estava seu conflito: assumir a missão que dizia ter recebido do Eu Divino e, ao mesmo tempo, administrar os tormentos comuns ao ego humano. Mas, sabia, era precioso dar sentido transmutador aos mais brutos sentimentos para encarnar a Luz no ventre da matéria: “Procuro a claridade, a luz da Luz”.

Assim, deixava as densas luminosidades adentrarem, transformando-as, através do “transe” criativo, em símbolos concebidos para o puro prazer dos ritos inesquecíveis da percepção. No começo da década de 1960, o poeta e crítico Ferreira Gullar já nos avisava: ao ver suas obras, jamais nos libertaremos delas.

Seu signos, “carregados de significados não-verbais” – como Valentim mesmo teorizava -, nunca poderão ser traduzíveis por um mero acaso do olhar curioso numa visita museológica. Para ir mais fundo:

. ir no fundo, enraizar-se, criar ambiências para habitar sua também herética heráldica;

. adentrar no âmago da Terra para sentir a “energia Kitônica” – da qual ele tanto falava – e ter o conhecimento real da frondosa e mítica “Árvore da vida”;

. fazer-se suporte da arqueologia do essencial através das riscaduras nas pedras, peles e papéis, para tatear o sonho dos ancentrais;

. visitar os terreiros do mundo para saber dos pontos soados, esculpidos e riscados nas várias matérias – traduções e tradições daquilo que está além da simples necessidade de crer.

Para perceber os “pontos” visuais de Valentim, é também preciso ter consciência de um Brasil com negritude ferida pela escravidão. Da senzala à favela; ele nasce mulato e pobre de uma Salvador ainda discriminadora de sua gente negra e mestiça. Em suas obras, essas mágoas são resolvidas quando vestem a pureza e a paz de Oxalá – personificação do espirito crístico do amor e da compaixão. No candomblé, Oxalá é o solar orixá compadecido -, ou quando ousa, índio e afro, a intensidade das cores quentes e fortes. Elas fazem profanas festas às divindades nos templos das civilizações onde mergulhou, àvido, além da herança natural advindas das nações africanas de kêtu, angola, jêje, yorubá e nagô. Daí, a afro e luminosa substância vital de sua obra. Ela, junto ao legado nativo, dizia ele, era o “tutano” no caldo grosso e substancioso da farta miscigenação brasileira.

Seu projeto instrumental de fazer do fazer com arte com todos estes “substratos poéticos”, é fundamentado pelo equilíbrio da intuição mestiça, junto a uma percepção arguta das conquistas da história da arte. Mas para ter de perto a propriedade original dessa história, não foi preciso ir muito longe. Cantou primeiro a poesis de sua aldeia. Foi universal, em sua lealdade às lembranças mais antigas, e original, ao recriar o sonho de tantos povos. Buscou recordações que só são arte quando nossa humanidade ousa imaginar, flui e, através disso, libertar-se.

Lembramos de seus primeiros alumbramentos:

. um caco de vidro azul ao sol, misturado ao encanto pelas pinturas do mestre popular Arthur Come Só, feitas de e com graça para enfeitar a casa paterna;

. as visitas com o pai aos rituais do Candomblé do terreiro do Axé Apô Afonjá de Dona Maria Bibiana do Espírito Santo, a grande Mãe Senhora, onde ficou impactado pelos ritmos, vestimentas e oferendas, e, acima de tudo, pelos as ferramentas de metal que simbolizavam e firmavam os orixás na Terra que ele veria mais tarde como logotipos das entidades;

. as sacras e dramáticas procissões e as profanas profusões de festas de sua bela nova-velha cidade;

. a cor e forma essenciais no lúdico dos brinquedos populares ou na cerâmica utilitária  vinda da alma úmida do Recôncavo Baiano que ele via na antiga feira de água de Meninos que sua mão o levava.

Estes são preciosos sedimentos, os “substratos poéticos” que substanciaram a inteligência elegante e viril de seu impecável e “intuído” design afro-brasileiro-universal. Através dele, escutava o futuro com a expectativa ansiosa de sua fabulosa e mítica imaginação. Fez dela um meio de libertação, já que se considerava um médium sendo perseguido pelas imagens arquetípicas dos sofisticados orixás que desejavam ter sua força anímica e energética recriadas e perpetuadas por Valentim.

Para livrar-se dessa imensa “carga telúrica” - como falou -, Valentim liberava essas entidades obras das dimensões do invisível, fazendo uma obra permeada de grafismo ímpar, sonhando com a eternidade. Elas só serão plenamente assimiladas em sua essência quando a inevitável evolução sensitiva da humanidade der um largo salto quântico.

Assim, quando o estético estiver livre dos jogos visuais vazios e dos jugos personalistas, a obra de Valentim brilhará ainda mais forte e coesa pela firme coerência não só estética mais conceitual. Será uma referência de lealdade a uma arte sem obrigações de permanecer apenas em braços vaidosos e vazios, e de dar, afinal, um abraço no corpo interativo e não fragmentado da Vida e Arte, uma só como sonhava Mondriam.

Era essa a busca do “sentir brasileiro/universal”, defendida por ele em um apaixonado discurso nunca tardio: o seu possível milagre do fazer que liberta. Uma feitura urdida com a acuidade da rara destreza de artesão, definindo não só espaços, mas destinos a cada estrutura articulada que ele acreditava e creditava, viva. Bastava observar a exigente delicadeza com que cuidava, embalava e montava cada uma de suas obras como se nada pudesse afetar o campo energético do que criou e que era além de um objeto. E estas obras podem estar em qualquer espaço, compor com todas as paisagens ou ornar templos de muitas religiões. Ao fazê-las, quem sabe, procurava ser:

. igual ao monge tibetano que emana, em plena atenção, a essência do mantra, compõe a pintura do tanka, intui que não é só arte, nem se sabe cantor ou pintor;

. qual uma índia Karajá que sente, molda pinta a forma feminina, não pensa que ela é objeto, nem se sabe escultora.

Este foi o dilema de Valentim, sabendo que assim devia o ser, ser em essência, e a mente e o ego do artista querendo o vazio do reconhecimento quase tardio.

Em cada dar doze mostras de Valentim que fiz a curadoria em duas décadas, havia sempre a sensação do espaço-templo onde sua inteligência sensível, magica, contemporânea era também receptáculo do acolher e reconhecer a sensibilidade humana em sua eterna procura pela ecologia do que é mais sagrado e eterno.

A presença de Mestre Valentim é como seu Templo de Oxalá de uma magia branca que paira além da arte e dá para escutar o aroma do sagrado.

 


 

 Bené Fonteles // “Ogã do Terreiro Imaginário de Rubem Valentim” // Salvador e Brasília, entre os anos de 199

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