Reflexões sobre julgamento estético

30 agosto 2016

Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo!
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que amo e que jamais desvendo?

Charles Baudelaire, Hino à beleza

 

Qual seria a principal diferença entre a Vênus de Botticelli, a Vênus de Pistoletto e a Vênus de Jeff Koons? Talvez minha pergunta seja maliciosa demais e já peço desculpas pela minha ousadia, porque as diferenças são inúmeras: são épocas completamente distintas, são técnicas distintas, propostas distintas. Mas há um elemento que unifica todas essas divergências em um único ponto e que nos permite pensar não só o que faz essas três obras tão díspares, mas a discrepância principal entre a arte de antigamente e a arte de agora: o julgamento estético, que se metamorfoseou com o tempo, especialmente na virada do século XIX para o XX.

 

O nascimento de Vênus, Botticelli (século XV)

 

Julgamento estético é um termo que parece prepotente demais, não é? Mas por favor, me dê a chance de tentar torná-lo mais acessível aos ouvidos de quem ojeriza academicismos (outra palavra prepotente, né? É a última, prometo). Julgamento estético, de forma bem simplificada, é aquilo que faz com que determinemos o que é bonito ou não; e por mais que isso pareça depender do gosto individual de cada pessoa, a sociedade como um todo, com sua cultura e seus costumes específicos, tende a participar da construção de nossas preferências estéticas. Essa construção, claro, se dá de formas infinitas: pela tradição, pelos valores de um povo, pelo conjunto de coisas que vamos acumulando com o tempo como referências de beleza, por uma manipulação midiática e outros fatores que não caberiam aqui.

 

Venus of the rags, Michelangelo Pistoletto (1967)

 

A arte, durante milênios, foi pensada como uma prática de cópia do real. Quanto mais parecida com a realidade, mais bonita era considerada a obra. Por isso temos aquelas esculturas da antiguidade greco-romana de cair o queixo. São perfeitas demais (perfeição aqui também entendida como uma grande aproximação da realidade). Esse ideal da arte antiga predominou até fins da nossa Idade Moderna, por incrível que pareça, e durante todo esse tempo, ela se moveu principalmente em busca de técnicas que a ajudasse a cumprir seu objetivo de se parecer cada vez mais com a realidade. No meio do caminho, entretanto, tinha uma pedra.

 

Balloon Venus, Jeff Koons (2013)

 

A invenção da fotografia e, mais tarde, do cinema, ambas no século XIX, alteraram a razão de ser da imagem. Os mais entusiastas desses dois novos tipos de arte gostam de falar que elas “libertaram” a pintura e a escultura do objetivo mimético, mas a verdade é que essa nova configuração veio como um peso para as artes plásticas. Não havia técnica no mundo que, por mais avançada que fosse, poderia dar à pintura e à escultura a realidade da fotografia e o movimento do cinema. As artes plásticas, dessa forma, perderam seu propósito, ficaram sem chão. Morreram, como algumas autoras gostam de falar. Mas foi aí, na tristeza, no fundo do poço, que elas deram a volta por cima, e renasceram das cinzas com um novo propósito: não mais de ser uma cópia do real, mas de ser pura expressão do artista.

A virada do século XIX para o XX muda o nosso julgamento estético. Passamos de uma era do “isso é belo” para uma era do “isso é arte”, e é essa a principal diferença entre as três Vênus que mencionei no início. Não buscamos mais a beleza clássica de proximidade com o real, isso ficou para trás e é bom que tenha ficado mesmo. Que monótono seria se ainda baseássemos nosso julgamento em ideais de beleza da Antiguidade. Já se passaram milênios, afinal. O que vale agora é a expressão do artista, um elemento tão único, tão mutante de indivíduo para indivíduo. E é essa a verdadeira beleza da nossa arte contemporânea. Tudo pode ser arte e todos podem ser artistas, como já nos mostrou Marcel Duchamp, com seus readymades, e diversas outras artistas depois dele. A arte do agora pode estranhar às vezes, mas é no estranhamento que está concentrada toda sua potência. Estranhamento é bom. O resto é tédio.

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