O teatro que “belisca” a pele do espectador

17 setembro 2015
Cartazes da ocupação da Cia Razões Inversas 25 anos na Funarte (Crédito: Divulgação)


Voltar a São Paulo com a montagem Eros Impuro não poderia ser mais gratificante, sobretudo, por estarmos dentro da Ocupação da Cia. Razões Inversas, que comemora 25 anos de existência dentro da Sala Carlos Miranda (Funarte SP). Encerramos no domingo (20/09) a primeira fase da programação, que teve como mote trabalhos que se relacionavam com temas como diversidade, preconceito, intolerância, discriminação e violência de gênero. É como se houvesse um laço no processo de abordagem que envolvesse as concepções de A espera dela, direção de Paulo Marcelo e concepção de Day Porto; Marica, direção de Márcio Aurélio e atuação de Washington Luiz, Agreste, encenação de Márcio Aurélio, e Eros Impuro, texto e direção de minha autoria, com interpretação de Jones de Abreu.

Dura, por vezes, a proposta de se discutir os limites humanos impostos por questões íntimas do âmbito da sexualidade é um mosaico infinito de possibilidades. Discuti-la significa abrir mão de uma zona de conforto da criação e visitar pontos obscuros do cotidiano, muitas vezes, não visitados nem discutidos na sala de estar. Isso põe, como urgente, o teatro dentro de uma arte inquietante que remexe em feridas que jamais se fecham. Por vezes, estacam-se. Mas sempre, quando tocadas, voltam a sangrar.

Nesse sentido, a opção de jogar ao centro do palco questões dessa natureza é um exercício ético e político de um teatro que não quer morrer ao fechar da cortina sem “beliscar” a pele do espectador, por meio de temas doloridos que o façam refletir sobre a jornada de existir num corpo social secularmente bombardeado por dogmas, questões morais e agressões aculturadas.

Não se trata de uma bandeira pelo teatro social até porque os quatro espetáculos, preservadas suas identidades, têm em comum uma forte pesquisa formal a partir de desenvolvimentos próprios de metodologias, “dizeres”  e “saberes”.  A Cia Razões Inversas, por exemplo, tem um excepcional trabalho na investigação de um teatro narrativo sem abrir mão de visualidades, como é o caso de Agreste, uma pérola contemporânea dos palcos brasileiros. A peça de 2004 tem como a inspiração trabalhos do artista plástico Joseph Beuys e dos fotógrafos Angélica Del Rio e Chema Madoz. 

A busca de processos que confluam temáticas de choque com pesquisa estética, dentro de uma metodologia consolidada com o passar dos anos, é o caminho para construção de identidade de núcleos de criação continuada. Um quarto de século conquistado pelo trabalho da Cia. Razões Inversas, com sua célula convergente de criação, Márcio Aurélio e Paulo Marcello, aponta para a importância de se manter o teatro dentro de um construtivo estado de inquietação. Não à toa, a Ocupação 25 anos Raízes Inversas desemboca em três trabalhos inéditos, A espera dela, é um deles. Até dezembro, o teatro brasileiro ganha mais dois inquietantes espetáculos com essa chancela. Que sejam banhados pela benesse do tempo.

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