Um coração que sangra dores da ditadura

24 novembro 2016
A atriz Fernanda Cunha em uma cena de "O Coração dos Homens", em cartaz no Teatro Cemitério de Automóveis (Créditos: Erika Almeida)

 

Ela está nua, deitada num divã. Guiada por luzes e um cenário minimalista, a atriz Fernanda Cunha desvia nossa atenção - primitiva - que sai do corpo para as palavras e emoções que ela desperta no intimista Teatro Cemitério de Automóveis, na Consolação. Dirigida por Henrique Stroeter, Fernanda incorpora todas as personagens delineadas pela escritora Verônica Stigger no monólogo "O Coração dos Homens". Todas as personagens são um coração que sangra. 

No romance Amuleto, do escritor chileno Roberto Bolaño, um dos personagens alude ao “coração dos homens, que sangra como as mulheres (...) e que obriga os verdadeiros homens a se responsabilizarem por seus atos, quaisquer que sejam”. Inspirada por esta passagem, Stigger batizou o monólogo.

Já na primeira cena, o espectador é convidado a se despir de medos. E diante da voz dessa mulher que relembra a infância em Porto Alegre, nos últimos anos da ditadura militar, somos convidados a tocar em feridas. Sejam elas as próprias ou de parentes que passaram por perseguições, sequestros e torturas. O palco exala um ato confessional sem nos deixar totalmente entristecidos, mas pensativos. 

Primeiro, ela é uma menina que retrata certa noite de nevasca em Porto Alegre. Manchetes no jornal só falam da neve. Uma superestimada neve que havia caído justo na noite em que seu pai fora levado por militares. Era como se a brancura da neve, a pureza da neve, falasse mais alto que a navalha que a cortava por dentro naquele dia. "As manchetes só falavam da neve...", repetia a menina. "Só falavam da neve..." 

Partindo daí, ela relata o que infância alguma deveria ser. E com essa dor, ela cresce e desaparece nas atividades mais emblemáticas da idade. Até que a primeira menstruação a tira do anonimato. O sangue é inevitável. Como também é inevitável fugir da dor que fora soterrada pela neve. A menina sangra e com ela sangram milhares de infâncias alvejadas. 

Agora, ela não é mais pura. E a escola católica onde estudava fazia questão de relembrá-la dessa impureza que, uma vez por mês, vinha acompanhada de uma poça de sangue.

Tocados pelos depoimentos ora trágicos, ora cômicos, somos conduzidos pela personagem e por elementos cênicos - luz, música, figurino - por este fio de vida. 

Por fim, nos transportamos para outras estrofes da vida dessa menina que não cabe em si e se torna uma mulher a sangrar... 

 

O CORAÇÃO DOS HOMENS

De 21/11 a 19/12, sexta e sábado, às 19h; domingo, às 18h; e segunda, às 20h
Local: Teatro e Bar Cemitério de Automóveis (30 lugares), Rua Frei Caneca, 384, Consolação
Ingressos: R$ 20 e R$ 5 (estudantes de teatro, mediante comprovação)
Informações: (11) 2371-5743
Classificação: 16 anos
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