Quando a dança coreografa o Turismo Criativo

7 novembro 2016
Luciana Lara, da Anti Status Quo Cia de Dança, na experiência Cidade Sensorial, do laboratório de turismo criativo Experimente Brasília (Créditos: Paula Carrubba)


Das três vezes em que Clarice Lispector esteve em Brasília, entre os anos 1960 e 1970, a escritora rodopiou adjetivos sobre a "cidade redonda e sem esquinas, construída na linha do horizonte", nas crônicas Brasília e Brasília, Esplendor. Quatro décadas depois, as mesmas palavras se agacharam, se esticaram e saltaram da boca da coreógrafa e bailarina Luciana Lara para guiar a experiência Cidade Sensorial, criada em conjunto com o laboratório de turismo criativo1 Experimente Brasília.

Junto a outros 15 turistas (de dentro e de fora da capital), participei dessa enigmática vivência. Confesso: não imaginava como a dança poderia protagonizar uma proposta na área de turismo. Longe, muito longe de um esvaziado tour cívico, Luciana não nos levou a teatros, bastidores e ensaios. Fundadora da Anti Status Quo, uma das companhias de dança contemporânea mais longevas da cidade, ela nos guiou pelas palavras de Clarice e por exercícios do olhar, do sentir e do se movimentar para, então, (re) conhecer a cidade.

É que certos elementos urbanos se tornam invisíveis ao cair nas armadilhas do cotidiano. Tampouco são perceptíveis àqueles que vêm de outro lugar, cujo olhar sobre Brasília reflete engessados roteiros de revistas de bordo. Por isso, nosso primeiro desafio estava na conexão com o próprio corpo e, a partir daí, com a cidade. Nos desconectamos de quaisquer expectativas para, finalmente, nos movimentar com - e ao som da - capital.

A experiência foi elaborada a partir de estudos sobre a relação do corpo com a cidade, realizados pela Anti Status Quo desde 2003. Ano em que começaram a criar o espetáculo Cidade em Plano, que estreou em 2006 e teve sua última apresentação em 2014. "Misto entre workshop e experiência, pois envolve o engajamento sensório/perceptivo/corporal dos participantes, por meio de dispositivos de ver de perto, de olhar longe, olhar pelo olhar do outro, perceber sem os olhos e o interagir com a cidade e a paisagem com o corpo e também com o outro", explicou Luciana Lara.

Do começo ao fim desta experiência, que durou cerca de cinco horas, desenhei outra Brasília para relatar a turistas desavisados. Infelizmente, não posso aqui relatar tintin por tintin como foi este dia, para manter o suspense àqueles que experimentarão a vivência. Mas posso adiantar que a cidade se tornou, aos meus olhos, "uma estrela espatifada", como bem descreveu Clarice Lispector. 

1. Brasília é olhar para o chão e ver bituca de cigarro, tampa de caneta bic e declaração de amor;

2. Brasília é dar voltas em si, enquanto o carro segue em linha reta; é não ficar enjoado quando as vias insistem no movimento circular;

3. Brasília é um silêncio ensurdecedor que pede verborragia da mente;

4. Brasília é um banho de água doce quando se avista o pôr do sol no Lago Paranoá; é vontade de ser sereia sem ter conchas para esconder a nudez;

5. Brasília é torta.

6. Brasília me faz cócegas e me joga para cima com a mesma facilidade com que me dá às costas e abre um buraco para que eu caia de cabeça para baixo;

7. Brasília é cinza, é verde, é vermelha, é cinza, é amarela, é laranja, é verde, é cinza...

8. Brasília não cabe no peito, e pra se libertar, extravasa em forma de lágrimas justo quando você mais precisa guardar água para não ressecar;

9. Brasília é um celeiro de nuvens; 

10. Brasília é um bolero para se dançar descalço, sem band-aid, e a sós. 

 

1. turismo criativo: é aquele que oferece aos visitantes a oportunidade desenvolver seu potencial criativo através da participação ativa em cursos e experiências de aprendizagem que são características do destino onde as férias são realizadas. Greg Richards e Crispian Raymond foram os idealizadores deste conceito no ano de 2000. 
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