Precisamos aprender a cantar com os pássaros

19 março 2018
Elenco do Grupo XIX de Teatro, em cartaz com a peça "Hoje o escuro vai atrasar para que possamos conversar" no CCBB SP. (Créditos: Jonatas Marques)


Quatro olhos, desengonçada, gordinha, nerd, cabelo ruim, avoada...

Uma lista de adjetivos que me cobriam de dores todos os dias quando voltava da escola. Ontem era chacota, hoje é bullying, mas a ação segue a mesma: alguém aponta o dedo para suas particularidades como se fossem características da pior natureza. Daí choramos, nos isolamos, nos negamos e passamos a trilhar um caminho solitário e escuro. Talvez o escritor israelense Amós Oz tenha desabafado por todos nós em "De repente nas profundenzas do bosque" (Ed. Seguinte). Vai ver, criou "essa fábula para todas as idades", como ele mesmo descreveu, em resposta a tantos e tantas que já foram machucados pela discriminação.

Movido por esse argumento, o Grupo XIX de Teatro adaptou a obra e fez a primeira montagem infantil da companhia. Em Hoje o escuro vai atrasar para que possamos conversar, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) até 23/06, crianças pequenas e grandes se identificam com a história de Luna, Santi e Clara. Três amigos que se indagam por quê não há mais animais na aldeia onde moram. Luna, no entanto, foi a única a duvidar e entrar no bosque. É ela quem escuta o canto dos pássaros e retorna para contar aos amigos:

"Sim. Há outros bichos do lado de lá".

Caçoada por Santi e Clara, a menina ganha o apelido de Lunática e ouve dos colegas: "Como pode haver algum animal na floresta se todos os adultos falaram que não existe nada igual?" Luna decide, então, fugir de casa e se refugiar na natureza. A partir desse momento, somos convidados a buscá-la pelos corredores, ambientes e outros "esconderijos" do prédio do CCBB, no Centro de São Paulo.

Nesta aventura, Janaina Leite, Juliana Sanches, Rodolfo Amorim, Ronaldo Serruya e Tarita Souza nos guiam permitindo que cada qual carregue sua própria bússola. Não há certo ou errado. Nem real ou irreal, apenas o que cada um sente e o que cada um mostra de si para o mundo. Uma reflexão sobre a intolerância, sobre a dificuldade de aceitar que somos, agimos, pensamos e  interpretamos o que há a nossa volta de maneiras diferentes.

O que se segue (e não haverá spoiler) é um mergulho no escuro. Dou as mãos para a menina de quatro olhos, desengonçada, cabelo "ruim", gordinha, nerd e avoada. Juntas também ouvimos o canto dos pássaros.

"Luna!!! Não é loucura! Eu também estou ouvindo... Como há beleza no bosque escuro pelo qual precisamos caminhar todos dias."

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