Perdeu alguém parecido comigo? Perdeu?

22 janeiro 2018
"Iracema via Iracema" acontece dentro de um ônibus estacionado no Deck do Sesc Pompeia (Foto: Maria Júlia Lledó)


Um por um. 

Dessa forma, pouco  mais de 20 pessoas embarcam no ônibus-palco estacionado no Deck do Sesc Pompeia. O transporte que iremos tomar -Iracema via Iracema - acelera, freia e capota algumas vezes sem que os passageiros se deem conta. É que a cicerone dessa viagem transborda o que antes estava contido. E ao apontar o que chama de "os três pilares da vida humana: mãe, dinheiro e caralho", pisa fundo numa história mais real que a proposta ficção.

Como ponto de partida, o texto homônimo de Suzy Lins de Almeida, dramaturga e pesquisadora cearense, que narra a vida de uma mulher de origem rural, semianalfabeta, moradora de um transporte urbano. Um enredo desenvolvido por dois núcleos de artistas criadores. Um é o Agrupamento Andar 7, criado por Luciana Ramin e Gabriel Diaz Regañon, que há dez anos realiza, em São Paulo, investigações e trabalhos com a amálgama do teatro, da fotografia, da dança, das artes plásticas e do cinema. O outro é a Trupe Sinhá Zózima, que pesquisa o ônibus urbano como espaço cênico de descentralização e democratização do acesso às artes desde 2007.

O resultado?

Iracema são muitas. 

São muitas no corpo, na voz e na presença desconcertante da atriz Luciana Ramin.

Iracema é a avó, a mãe e a filha.

A mulher para quem o mundo deu as costas. Aquela que sofreu abusos na infância, carestia de comida, respeito e amor na adolescência e que dessa maneira mal ajambrada, adultesceu com fome de dignidade.

É ela quem recebe os passageiros-espectadores. Dá-lhes "a benção", fitando-lhes fundo dos olhos para que não haja estranhamentos no desenrolar das interações que se darão pelos próximos 90 minutos.

Compartilham-se, então, goles de Catuaba Selvagem e salgadinhos de bacon-beira-de-estrada... Até que, por fim, nos tornamos primeira pessoa do plural.

"Iracema é o porão empoeirado da cidade, o porão esquecido pelo ser humano, e invisível, onde depositamos tudo que não queremos ver e escondemos a sujeira, o objeto antigo, o móvel deixado às traças. É o lugar onde os pesadelos dão cria e as baratas se escondem. Iracema transporta o porão para o coletivo, o espaço público nem tão público assim. Acende uma vela de sete dias no porão escuro, descreve o porão, torna-o visível e pergunta: Perdeu alguém parecido comigo? Todos os dias alguém perde alguém que não quer encontrar, ouvir, ver, sentir o cheiro e abraçar: alguém assim como Iracema, que invadiu o espaço-tempo perdido no ônibus, na casa itinerante que é de todos." (Trecho da apresentação da peça)

Vai embarcar?

Quer bulir num coração estacionado?

Então, Iracema é pra você...

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