Ode à arte desconhecida

7 agosto 2016
Chasseurs d'Afrique (1854). No século XIX, enquanto a burguesia louvava obras-primas já consagradas, Baudelaire elogiava o trabalho de Constantin Guys, um jornalista que cobria guerras por meio de desenhos do cotidiano.

 

Lá no longínquo século XIX, o poeta e crítico de arte Charles Baudelaire percebeu uma atitude comum em sua época, que hoje, mesmo passados duzentos anos, podemos comparar com nossa era contemporânea. Em O pintor da vida moderna, ele criticou as pessoas que vão ao Louvre atrás das grandes obras-primas: visitantes entram no museu apressados por ver a Mona Lisa ou a Vênus de Milo ou um Tiziano qualquer e ignoram tudo que não integra o leque restrito dos cânones das artes plásticas, ignoram os pintores mais recentes e a arte feita no “agora”. Sagaz como era, amante da modernidade, Baudelaire condenou essa burguesia cega, que está mais preocupada em contar vantagem por ter visto um Michelângelo do que em realmente ver arte, e escreveu um elogio ao artista do presente, falou da sua importância como um cristalizador do tempo e do espaço, um registrador de uma determinada cultura.

“Felizmente”, ele disse, “de vez em quando aparecem justiceiros, críticos, amadores e curiosos que afirmam nem tudo estar em Rafael” e que, mesmo essas pessoas amando a beleza clássica, entendem que é um erro negligenciar a “beleza das circunstâncias e a pintura de costumes.” O pensamento do século XIX de Baudelaire ainda é atual. Quantas pessoas conheço que se gabam por ter ido à exposição de Frida Kahlo ou à de Mondrian aqui no Brasil, ou por ter visitado o Museu do Prado em Madri, mas que, quando convidadas a ir àquela galeria pequena, à primeira exposição individual daquele artista desconhecido, fazem careta ou simplesmente deixam para depois, um depois que nunca chega? Muitas. Essas pessoas não são monstros distantes, habitam meu círculo afetivo: são amigos e familiares, alunos, vizinhos, colegas de profissão. Estão por toda parte, em todo lugar, têm contas bancárias gordas e grandes títulos no currículo.

O artista contemporâneo desconhecido merece a atenção do olhar tanto quanto um Leonardo da Vinci consagrado. A etiqueta de uma obra de arte não pode ter mais importância do que o desenho que a tela mostra: nomes são irrelevantes no primeiro contato com a obra. Que fácil é elogiar a beleza clássica já consagrada. Difícil é refletir sobre algo completamente novo, em que discursos construídos são inexistentes e que a única coisa que manda é a liberdade de pensamento de quem olha, e essa é uma liberdade muito preciosa, jogada no lixo cada vez que a “arte nova” é negligenciada.

Um professor meu gosta de dizer: “Sempre desconfie de quem é mais inteligente que você”. Gosto de me apropriar e usar esse conselho em outras instâncias também: sempre desconfie de discursos prontos, discursos que existem há tempos e que, de tão endeusados, nunca são questionados. Não é porque a história exalta os renascentistas que todo o resto não é digno de um olhar apurado. Não é porque Picasso é leiloado por milhões de dólares que uma gravura contemporânea de R$ 50 não merece atenção. O hoje tem sua importância e riqueza, e o hoje pode ser o cânone de amanhã. Artistas contemporâneos estão fazendo trabalhos interessantíssimos no Brasil, mas muitos ainda são condenados ao papel do artista-fodido por essa insistência de que arte boa é a arte clássica ou as vanguardas modernas ou a nova moda do momento que os jornais gostam de lançar. Por demais ignorante esse pensamento.

Visitar exposições pequenas e prestigiar novos artistas deve ser atividades frequentes de quem se julga amante das artes. Quem só vai a grandes exposições não gosta de artes, mas do status que ela carrega, um status que a arte contemporânea questiona a todo momento, começando pela ideia de beleza. Aos que não são acostumados à “nova arte” saibam: não vão esperando beleza clássica, porque esta escapuliu há tempos, ficou perdida em algum lugar da história. Mas isso não quer dizer que essas obras não sejam belas também. Só a noção de beleza que mudou e isso é bom. Monotonia e mesmice são inimigas das artes plásticas. Mas vou deixar esse assunto para uma próxima conversa. Beleza contemporânea merece um artigo à parte.

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