O palco ou a tela do celular, eis a questão

8 abril 2015
      Foto: Divulgação

 

Se a essência da arte teatral só se revela diante da plateia, estes primeiros tempos do século 21 põem o encontro entre processo criativo e espectador como um dos grandes problemas das artes cênicas contemporâneas. Aqui e ali, é comum ouvimos artistas reclamando dos teatros esvaziados e da falta de política pública para formação de plateia e do abissal distanciamento entre teatro e escola. O choro procede. É claro que, se fossemos um país onde o teatro estivesse presente na rotina dos nossos meninos e meninas, teríamos uma relação quantitativa – e qualitativa – diferente com quem senta na poltrona de teatro. Esse, aliás, é um problema também da música erudita, da ópera, da dança e, quiçá, das artes visuais e performáticas.

Apesar do visível desinteresse de parte do público pelo teatro, o que se impõe como um questionamento urgente é de outra ordem. Talvez, da natureza do ser humano contemporâneo. Como lidar com esse espectador afetado pelas tecnologias que traz no bolso? Da cabine de luz e som de um teatro, de onde nós, diretores, padecemos para que a arte do ao vivo se estabeleça dentro de um parâmetro de excelência, a imagem é, por vezes, desoladora. A caixa escura do teatro, urgente para quebrar as conexões com o mundo externo que seduz e atormenta o espectador, é rasgada por pequenos clarões que explodem das telas dos aparelhos móveis.  

Por alguns segundos, aquele que deveria estar em comunhão, ou em conflito, com o palco, desprende-se da narrativa para se conectar com o universo externo. Desliza os dedos sobre o visor, desconcentra quem está ao lado, põe o diretor/atores em estado de aflição e se divide entre esses dois mundos inconciliáveis para que o rito teatro se estabeleça.

É uma questão de educação, brada alguns que acreditam em medidas coercitivas, como a de pedir para o cidadão desligar o aparelho ou se retirar do teatro. Será que a plateia deve ser tratada como se composse um jardim de infância? O espectador contemporâneo, sobretudo, o jovem, nasce em meio às novas tecnologias. Tem a visão fragmentada. É capaz de operar várias janelas de informação simultânea. Estuda, trabalha, caminha, almoça, flertando com o Facebook, o Twitter e Whatsapp.

Alguns não conseguem ficar meio minuto sequer sem verificar as 1.001 atualizações. Imagine ter que se desligar de tudo e de todos por duas horas de teatro na veia? E se a narrativa lhe levar ao estado de tédio? Ou, ao contrário, a peça é tão instigante que ele resolve fazer um post no calor da hora. Ou ainda, apreender uma cena, filmando ou fotografando, mesmo que isso tenha sido repreendido pela produção antes do terceiro sinal.

O espectador é o que há de mais complexo para o teatro no século 21. E os artistas precisam pensar nessa questão não de forma externa, vociferando contra os algozes como censores do jardim de infância. É preciso levar esse problema para dentro do processo criativo. Não como uma forma de concessão visando facilitar a vida desse espectador disperso e afetado pelo mundo contemporâneo. A construção da narrativa precisa se deparar com a recepção contemporânea bem antes da estreia. Há criadores que submetem o processo ao encontro antecipado com o público, colhendo observações para se retroalimentar.

Há os que trabalham visando criar categorias de espectadores abstratos que entram em contato com a criação. Eugenio Barba é um deles. Todo o seu processo é submetido há cinco tipos de espectadores arquétipos, com o objetivo de mantê-los atentos ao texto espetacular criado em sala de ensaio. Mantive contato com essa possibilidade em um encontro de direção que fiz com o italiano radicado na Dinamarca. Tenho desenvolvido esse exercício na construção dos dois últimos espetáculos – Eros Impuro e Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José.

A proposta afeta diretamente a dramaturgia cênica. Barba propõe que a narrativa dialogue com O Cego (aquele que necessita de uma partitura sonora que o seduza), O Surdo (o que se mantém ligado a partir da construção de visualidades), O Menino (o que compreende e necessita das loucuras, do nonsense), Os Borges (os intelectuais, que precisam de referências e construções menos objetivas) e O Antropofágico (o que, mesmo sem ter vivência com o teatro, é tragado pela energia, pelo rito, pela festa, pelo teatro vivo, e transforma-se).

Essa proposta de Barba põe em jogo uma ordem urgente de pensar a recepção como uma ponta importante no processo de criação e não como uma instância a posteriori, que adquire um ingresso, senta-se na poltrona e fica diante da obra teatral como um estranho no ninho. Pensar o espectador dentro do processo é assumir e compartilhar a responsabilidade de conseguir ou não fisgá-lo, mesmo que ele divida alguns preciosos segundos com o mundo sedutor. Talvez, essa seja uma nova ordem de humanos que irão ao teatro. Para seduzi-los, será preciso compreendê-los. Eis a questão.

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