O adeus a nossa Lady Shakespeare

10 abril 2015
Conhecida como crítica de língua ferina, Bárbara Heliodora dedicou 45 anos de vidas às resenhas de espetáculos (Crédito: Reprodução/Internet)

 

A mais importante crítica de teatro do país e, na mesma proporção, a autoridade maior em William Shakespeare, Barbara Heliodora, morreu hoje, aos 91 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência a problemas respiratórios.  São mais de 45 anos dedicados ao ato de escrever resenhas jornalísticas sobre milhares de espetáculos (ele calculava ter visto entre 2.500 e 3.000 obras). Aposentada do ofício, afastou-se sob a birra dos grupos contemporâneos de teatro, dos quais a então crítica tinha grande dificuldades de traduzir as impressões no papel. Nos anos 2000, a crítica de Bárbara Heliodora era tida como “obsoleta” por elencar erros e acertos e não promover uma reflexão mais ampla sobre a temática da peça.  Bárbara, no entanto, estava longe de ser uma analista racional que despreza as impressões após concluir a tarefa de sentenciar o seu veredito sobre o espetáculo. Gostem ou não, vai-se um mito do teatro brasileiro.

— Não sou um mito e acho isso horrível. No início, fiquei assustada. Algumas pessoas criaram essa imagem. Nem sei por que inventaram essas coisas. Acho que cada um elege o crítico que melhor conversa com o seu gosto. Acredito em duas verdades: o bom crítico precisa ser o mais isento possível e é impossível um crítico ser totalmente isento. Trago ao espetáculo toda a minha formação e, claro, essa visão vai pesar quando escrevo. Por isso, é bom ter vários críticos atuando numa mesma cidade.

Triturando o próprio mito, Barbara Heliodora se posicionava como uma espectadora atenta. Lógico que com conhecimento especializado, mas acima de tudo uma espectadora, que jamais quis ser maior que o espetáculo. Sabia o quão era difícil transformar o texto de papel na peça que vivia e respirava junto do público. Era uma pessoa que tinha por função mediar as impressões da montagem tanto com os artistas quanto com a plateia. O duplo objetivo lhe parecia na medida certa. Tudo que vinha a mais era encarado com um certo exagero.

— Não estou escrevendo para o futuro. A minha crítica é para o aqui e agora.

Nas coxias dos teatros cariocas, grupos fluminenses e visitantes se ouriçavam quando alguém da produção chegava e avisava que Barbara Heliodora já estava sentadinha na poltrona. O natural frio na barriga já virou devaneios. Teve um diretor que perdeu as estribeiras e tentou impedi-la de assistir à peça; outro, mais ressentido, desejou que a morte lhe visitasse com brevidade. São histórias desagradáveis, mas que a mulher de santo forte tira de letra.

— Sei que os elogiados me adoram (ri). Uns dois ou três diretores já me disseram que, quando a crítica é negativa, a frequência da peça não chega a cair, mas, quando é positiva, levanta a temporada.

Firme e honesta em suas posições estéticas, Barbara Heliodora era, decerto, dona de uma credibilidade capaz tanto de alçar nomes desconhecidos no mercado, quanto de ressuscitar carreiras em declínios. Do alto de sua maturidade, orgulhava-se de nunca ter perseguido esse ou aquele artista. Para ela, o objeto de todo o seu apreço era o espetáculo em sua magnitude. Se a montagem estivesse condizente com o crivo dela, não havia por que economizar nos elogios.

Totalmente a favor do teatro, Barbara Heliodora era testemunha da evolução das artes cênicas no Brasil, sobretudo nos anos 1950 e 1960, quando viu o país abraçar a modernidade com dramaturgias que refletiam os problemas nacionais e montagens esteticamente ousadas. Nesse contexto, ajudou a fundar o Círculo Independente de Críticos Teatrais, ao lado de nomes como Paulo Francis e Sábato Magaldi. A instituição postulou outro formato para as resenhas jornalísticas, agora mais objetivas e que clamavam por um teatro renovado.

— Antes, era algo assim: “Fulana ficou ótima com o figurino cor de rosa”. Fizemos também um intenso trabalho de formação de plateia, com sucessivos cursos de história do teatro e conferências.

Antes, quando ia ao espetáculo, ela fazia as devidas anotações. Faz tempo que tinha erradicado esse procedimento. Observava tudo com a mente funcionando a mil. Havia uma minúscula parte do seu cérebro que rabisca tudo para ela, enquanto os olhos se entregavam desde o primeiro instante da narrativa. Revelava que os 15 minutos iniciais são cruciais em sua apreciação. Se estava perdida, já era. É sinal de que a peça não se comunicava. Essas impressões eram levadas ao computador e arrumadas em partes: uma apresentação da peça, uma análise do texto, da encenação (figurino, cenário, luz, trilha), a condução do diretor, a performance dos atores e um desfecho de arremate. Tudo agrupado naquelas poucas dezenas de linhas — limitante da crítica jornalística. Os estudiosos que se debruçam sobre o trabalho dela, dizem que é pura semiótica (ciência que estuda os signos). Barbara ria dessa bobagem.

— Se sou semiótica, foi por mera coincidência. Nunca estudei uma linha sobre isso.

Tudo que aprendeu foi se debruçando sobre textos e vendo teatro. Quando voltou dos Estados Unidos, fez uma vivência em O Tablado, da amiga Maria Clara Machado, para entender como se faz o milagre teatral, capaz de suscitar toda sorte de sentimentos, que para a crítica Barbara Heliodora, devem ser ditos com extrema honestidade e sem meias palavras. Gostem ou não.

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