Miklos arrasa como Chet Baker

19 fevereiro 2016
Paulo Miklos como um Chet Baker decadente em "Chet Baker - Apenas um Sopro", no CCBB SP (Créditos: Victor Iemini)


Digamos que é um assombro a interpretação de Paulo Miklos em Chet Baker- Apenas um sopro. O velho Miklos já havia surpreendido tempos atrás com sua aparição em O invasor, filme de Beto Brant, na pele de um psicopata de ocasião. Depois vieram outros bons trabalhos, também na tela. Agora, como o trompetista junkie Chet Baker, tem sua estreia nos palcos. E digo de cara que sua pegada o deixa já entre os grandes da arena teatral. Da voz ao olhar, da retenção dos músculos das costas à maneira de falar – Miklos construiu um grande tipo, com inflexões e homenagens a passagens de Marlon Brando e James Dean. Ali tem história, a começar pela levada beat e os esgares comuns aos personagens de Kerouac.

A peça, texto de Sergio Roveri, flagra o retorno do trompetista Chet Baker aos estúdios, depois de perder montanha de dentes numa briga de rua, em 1968, na Califórnia. Vamos lembrar que Baker era um gato, de uma beleza próxima à de Brando e Dean, com uma voz maviosa e um trinado de trompete do tipo adâmico e, convenhamos, a falta de dentes comprometeria ambas as habilidades. Viciado em heroína e outros quetais, a briga foi o ápice (ele teria vários ápices, porque o velho Chet não veio ao mundo para contemporizar) de uma sequência de desaforos pessoais, entre brigas com amantes, traficantes, produtores e consigo próprio,  acima de tudo. Algum psicanalista de plantão explicaria que o fato de ele perder os dentes era o emblema de alguém que procura soterrar os poucos instrumentos capazes de o manter à tona : sem dentes, como cantar e tocar trompete? Nem Corega resolveria.

Aos poucos aquele rosto de beleza a la michelângelo tornou-se vincado, marcado pelo vício, sulcos extremos talhados na pele enfim opaca. Com aqueles olhos verdes esmaecidos pela abstinência e excesso.

Das profundezas ele renasceu, e nos daria ainda discos importantes. É óbvio que algo mudou em sua voz e no timbre de seu trompete. Puristas diriam que nunca mais foi o mesmo – o que é verdade, mas e daí? Um Chet Baker com dentes repostos ainda é melhor do que… bem, vc pode preencher o pontihado com dezenas de nomes.

Antes de ser um cara digital no jazz americano, o sujeito era um personagem na arte de desafinar o coro dos contentes. Sua radicalidade musical vazava para seu comportamento pessoal, sua atitude de franca ojeriza ao sistema, às convenções, tornando-o um tipo adoravelmente egoísta e particular. Digamos que Chet Baker, ao contrário dos tempo de auto-ajuda, não focava, não alinhava, não buscava o …emponderamento, como reza a cartilha e o dicionário corporativos. Baker se filia, em gênio e verso, com o desvio pessoal de Charlie Bird Parker, Bud Powell, Dexter Gordon (que sobreviveu), entre vários outros jazzistas que rimaram música e drogas. Eu me lembro dele num show em São Paulo, na década de 1980, e do silêncio silente e respeitoso da plateia para recepcionar sua voz e os poucos solos de seu trompete. E de seu jeito algo tímido nos camarins, após o espetáculo, com seu espanto diante da aclamado delírio do público paulistano. Ele morreria poucos anos depois, em 1988, ao cair do segundo andar de um hotel em Amsterdan. Como seu êmulo, William Burroughs, passou boa parte da vida olhando a ponta do sapato.   

Miklos vive no palco um Baker já vincado em pele e vergado pelo vício, porém sem qualquer vestígio de futuro arrependimento. Está no estúdio de gravação ao lado de outros instrumentistas, seus amigos, todos capazes de reconhecer suas falhas e bisar sempre sua genialidade. Ali não se faz uma sessão de análise, embora os diálogos sempre remetam a uma sequência de oportunidades perdidas, dispensadas entre os dedos das mãos; também não se incensa o vício ou se idolatra o fracasso; apenas compreende-se o inevitável peso da existência e a maneira como cada um atabalhoadamente a conduz, desgastando-a sem pensar em amanhã: “Alguém que eu conheço guardou dinheiro”, pergunta, entre perplexa e desconfiada Alice, a cantora vivida maravilhosamente por Anna Toledo.

Na linguagem de Baker e daquele mundo de jazzistas o amanhã sempre foi hoje. Por isso a mistura constante entre vida e obra, obra e vida. Do mesmo jeito que não se respeitam os horários, mesmo nos caros sets de estúdio, qualquer um deles fica entregue à música por longas horas, numa entrega que não obedece ao burocrático dia comercial.

A direção de Roberto Jardim alterna ação em grupo e solos interpretativos, com os tempos de uma peça bakeriana, às vezes uníssona, por vezes agônica. A iluminação constrói o clima noir de uma conspiracão.

Se eu fosse você não perderia Chet Baker-Apenas um sopro nem por um beijo na boca.
 

CHET BAKER - APENAS UM SOPRO
Dias: Até 7/04 - Segunda, quarta e quinta, às 20h
Local: Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 111, Centro - São Paulo 
Ingressos: R$ 10,00
Classificação indicativa: 14 anos
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