Memórias (não) inventadas por um fio de vida

20 março 2017
Camila dos Anjos, Fernanda Viacava e Eucir de Souza em "Memórias (não) inventadas)", no Viga Espaço Cênico


Deitada sobre uma cama tão pequena e frágil quanto ela, Bertha (Fernanda Viacava) é um fiapo humano que teima em se agarrar às poucas lembranças que narra. São elas, aliás, as recordações (ou invenções), que a mantém viva no quarto de um prostíbulo decadente. Na penteadeira de Bertha, uma boneca (Camila dos Anjos) - narradora ou alter ego - é quem conduz os espectadores da sala Piscina, no Viga Espaço Cênico, por um labirinto de memórias.

"A memória permite inúmeras licenças poéticas. Ela omite alguns detalhes; outros são exagerados, de acordo com o valor emocional envolvido no tema, porque a memória está assentada predominantemente no coração”, Tennessee Williams (1911-1983)
 

Sob direção de André Garolli, Bertha, a Boneca e outros dois personagens interpretados brilhantemente por Eucir de Souza fazem um cabo de guerra entre a razão e a emoção. Entre paixões e dores que costuram a vida de Bertha, nos vemos num misto de compaixão e raiva pela vida que lhe foi imposta. Do lado de cá, o público mantem as emoções à flor da pele do início ao fim. 

Sensível e brutal, o espetáculo nos empresta uma recordação que vagamente (ou não) poderia ser nossa. Bertha não se cala. Apenas, sonha. Sonha apesar dos trapos de lembranças que lhe sobram. Trapos de um amor mais forte que o esquecimento.  

Com a palavra, atores e diretor...

"Você se lembra exatamente como foi?"

O "exatamente" contido na pergunta acima faz com que qualquer pessoa coloque em cheque sua própria memória. Será que nos lembramos das coisas como elas realmente aconteceram? Ou a nossa mente reinventa o passado que nos seja mais favorável?

Após estudo realizado sobre os contos e peças de Tennessee Williams, nos vimos diante de uma gama imensa de possibilidades simbólicas, líricas e imagéticas a explorar. O universo do autor está repleto dessas criaturas que vivem perdidas entre os sonhos fantásticos do passado e a melancólica realidade da existência a que chegaram. Nesse pálido retrato das esperanças acalentadas, as memórias do autor e das personagens se confundem sem piedade, revelando seus desejos e frustrações. A promessa de “um dia” não se realizou e o que resta é insegurança e medo.

Em "Memórias (Não) Inventadas" propomos uma viagem para dentro da cabeça da prostituta Bertha em seus últimos momentos de vida. Já muito doente, ela confunde fatos do passado com um presente deturpado. Sua condição febril e delirante surge como uma oportunidade para abrir cortes no tempo e espaço, confundir memórias e alucinações e, acima de tudo, revelar ao espectador um mosaico de imagens colhidas na obra do autor.

(Fonte: Memórias não Inventadas)

SERVIÇO

MEMÓRIAS (NÃO) INVENTADAS
Temporada: De 25 de janeiro a 30 de março/2017, quartas e quintas às 21h
Local: Viga Espaço Cênico, Rua Capote Valente 1323, Sumaré
Ingressos: R$ 40,00 e R$20,00 (a bilheteria abre uma hora antes da sessão)

 
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