Mediação: vínculos e narrativas

9 agosto 2016
Tatiana Blassa, instalação Penélope, 2011

 

A partir da frase inspiradora da artista Lygia Clark (1920-1988) procuro construir/desenvolver meu trabalho como arte educador despertando a memória do público e alimentando-a. Uma obra de arte muitas vezes passa ignorada pelo visitante pelo fato de não ter uma relação afetiva com ela. Por exemplo, é muito mais comum as pessoas passarem diante de obras que elas já conhecem, que diante de uma obra que elas nunca viram antes. Como vivenciar um trabalho artístico? Para que serve um objeto de arte? O que essa obra tem a me dizer? Essas e outras perguntas são questões geradoras essenciais no processo da mediação.

A prática recorrente de um arte educador(a) é a mediação que busca estratégias para transformar a imagem do museu de um depósito de coleções ou de bens herdados em um espaço que valoriza a ressignificação dos objetos artísticos e alimenta o universo afetivo e reflexivo do público. Além de promover o diálogo, a mediação vem em forma de uma experiência afim de promover o acesso à cultura, ou a um patrimônio cultural.

Em uma das mediações na obra Penélope da artista Tatiana Blass (1979) que realizei no Museu da Cidade de São Paulo – Capela do Morumbi , percebi claramente a importância de se ter um mediador em um espaço expositivo. Era um grupo de universitários do curso de História de diferentes idades, todos os integrantes estavam tímidos, calados e traziam apenas curiosidades para experimentar o novo, experimentar uma obra de arte. O tempo parecia flutuar e as memórias ali levantadas começavam a narrar aquele lugar.  Passaram-se  horas, conversamos sobre o objeto artístico, sobre o lugar, sobre a cidade e entre tantos prédios ao redor do equipamento cultural o mundo acontecia. No decorrer da visita, a visão sobre aquela obra começava a mudar e a mágica da interação do público começava a costurar uma história.

Mas afinal para que serve a mediação? Abrangendo diversos eixos como o tornar possível e pertinente, comunicar, reconhecer, falar, entender o silêncio e ao mesmo tempo promover o dialogo. A mediação é em última instância, uma forma de experiência com a arte. Não somente uma experiência qualquer, mas acima de tudo, uma experiência orientada para a valorização da cultura e sua relação de pertinência com o público.

O mediador não é um reprodutor de informações, mas sim um agente que estimula o diálogo. É fundamental nesse processo provocar um interesse de apreciação nos indivíduos envolvidos por meio da problematização dos temas abordados pela obra, como se cada fragmento da memória fossem peças de um quebra cabeça a ser construído no coletivo. Entretanto isso não quer dizer que o papel do mediador seja questionar o público o tempo todo. Ele deve construir junto, compartilhando experiências, vivências e memórias que venham a aproximar o público de um trabalho artístico. O ponto de partida de uma mediação se dá no momento em que se propõe questões para iniciar uma conversa. Abrindo as portas para uma troca, uma conversa, um diálogo. Esse educador interliga, intermedia e constrói uma ideia em conjunto com o público.

O mediador também se movimenta, podendo ele ser o educador, o individuo, o visitante ou até mesmo o próprio objeto de arte. Isso porque a mediação transforma o ponto de vista das partes envolvidas, podendo assim um mediador ser mediado. 

No contexto de uma exposição, por exemplo, a mediação não se restringe à obra de arte. Ela pode existir também a partir dos textos de paredes ou da curadoria como um todo. Mediação são vínculos entre arte e público, que o mediador ajuda a construir. Por isso ela não se restringe a um profissional da área, pois também pode acontecer entre dois amigos que visitam uma exposição e trocam suas memórias, experiências e reflexões.

É importante dentro do processo da mediação levar em consideração que os sujeitos envolvidos têm vivências e experiências distintas, além de necessidades diferentes, o que torna primordial o cuidado com a linguagem. Para que ela aconteça é necessário ir além da obra em si e buscar formas e situações de mediação, aumentar seu repertório, estudar sobre o espaço a ser explorado/visitado, conhecer seu público, e principalmente, conhecer a si mesmo. Cada uma dessas maneiras estimulam a mediação e potencializam a experiência do público no espaço expositivo.

Toda essa trajetória que interliga mediador e público se dá a partir de um diálogo que traça uma narrativa entre a obra de arte e o público. Para que isso aconteça, todos os envolvidos no processo da mediação devem estar abertos à construção e desconstrução de suas ideias.

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