Em cartaz: Contemporary Theatre from Brazil

23 novembro 2015
Julia Spadaccinie em "Quebra-Ossos", na programação do Contemporary Theatre from Brazil (Créditos: Claudio Senra)


“Contemporary Theatre from Brazil”. Este foi o nome da noite brasileira que aconteceu em 9 de Novembro no Martin E. Segal Theatre Center da Cuny, Universidade da Cidade de New York. Quatro peças foram lidas por um elenco americano e dirigidas por Tea Alagic e Kaneza Schaal: A Refeição de Newton Moreno, A Porta da Frente de Julia Spadaccini, Galápagos de Renata Mizrahi e Fluxorama de Jo Bilac.

Para surpresa e prazer de todos os envolvidos neste projeto, o pequeno teatro de cerca de 80 lugares estava lotado, com gente em pé e até mesmo no chão. A resposta do público foi positiva, entusiasmada, e o impacto grande. No final, alguns brasileiros contaram ter chorado durante as leituras pois se disseram emocionados demais tanto com a qualidade das peças, quanto por ver nossa dramaturgia tão bem representada, em um evento tão bom.

Há oito anos ou mais não se fazia nenhuma atividade sobre o teatro brasileiro lá.

Bem, tudo começou quando eu estive no Segal Center de out/2014 a março/2015 com uma bolsa sanduíche para fazer a minha pesquisa final de doutorado. E na pequena sala que me cederam para trabalhar, eu vi muitos livros publicados por eles: A Nova Dramaturgia da Síria, O Teatro Contemporâneo do Egito, Peças de Barcelona, entre outros. Pensei: por que não Brasil? Temos tantos autores escrevendo tanto e tão bem...

Procurei o diretor do Segal Center, Frank Hentschker, e propus a publicação de um livro com peças da nossa nova dramaturgia. Esta primeira ideia acabou transformando-se em uma linda noite de leituras de peças. Além das leituras, eu fiz, a pedido do Diretor, uma apresentação de 10 minutos sobre o teatro contemporâneo brasileiro. Confesso que foi uma tarefa que me tirou o sono pois, imaginem... apresentar o teatro brasileiro contemporâneo em 10 minutos??? Quantos artistas ficariam, e de fato ficaram, de fora? Mas acredito que foi bom, eles puderam conhecer um pouco o nosso teatro, desde a estréia de Macunaíma (1978) de Antunes Filho, espetáculo identificado como a matriz inaugural do contemporâneo no Brasil até o final da primeira década do novo século.

(...) imaginem... apresentar o teatro brasileiro contemporâneo em 10 minutos??? 

Os autores Jo Bilac e Renata Mizrahi estavam presentes nas leituras, puderam eles mesmos apresentar as suas peças e, no final, uma conversa entre o público, os dois autores, Frank Hentschker da CUNY, eu, diretoras das leituras e o editor da revista Theatre da Yale, Tom Sellar. Foi quando pudemos perceber o que chamei de resposta positiva e grande impacto.

Uma das pessoas do público me perguntou qual tinha sido o critério para a escolha das peças. Minha reação foi dizer “qualidade”. Mas como tinha sido uma reação e não uma resposta, continuei... Imagino que alguns dos que me lêem aqui talvez tenham se perguntado a mesma coisa e eu, então, explico aqui também.

Desde minha primeira ideia sobre o evento pensei em Newton Moreno e Jo Bilac pois, não apenas representam duas gerações, como são dois autores de grande representatividade e qualidade que vem marcando presença nos palcos de muitas cidades brasileiras. A necessidade de incorporar autoras a esse primeiro time logo se colocou. As mulheres tem escrito muito e muito bem, elas também tem marcado a cena teatral com textos incríveis e, claro (eu achava, e ainda acho!), deveriam estar presentes. Cheguei a Spadaccini e Mizrahi por serem escritas particulares, boas e muito diferentes entre si. Mas foi difícil! Pensava em Grace Passô, Silvia Gomez, Priscila Gontijo, Daniela Pereira de Carvalho, Michelle Ferreira e queria todas lá.

O entendimento de todos foi o de que a dramaturgia brasileira tem um enorme potencial para gerar interesse no público americano e que as peças deveriam ser encenadas lá. Pois se há oito anos não se fazia nada sobre o teatro brasileiro na Universidade, o que dizer de textos brasileiros encenados? Talvez o maravilhoso e necessário Nelson Rodrigues, ele sim (às vezes), mas a dramaturgia contemporânea? Nem imagino se ou quando chegou aos palcos novaiorquinos! A ideia de encenar textos brasileiros por um time americano, inclusive, foi uma proposta da propria Cuny após a noite de leituras, muito possivelmente como uma resposta à boa recepção aos textos. Seria mesmo importante e lindo produzir esses espetáculos por lá. O que falta para isso se tornar realidade? Bem, como diz uma expressão em inglês que eu adoro... “take a wild guess”... Recursos, claro.

O entendimento de todos foi o de que a dramaturgia brasileira tem um enorme potencial para gerar interesse no público americano e que as peças deveriam ser encenadas lá.

Mas as portas começam a se abrir para a nova dramaturgia brasileira que se faz cada vez mais presente em nossos palcos e começa também a ser mais e melhor conhecida em outros diferentes países através de publicações, traduções e ciclos de leituras e debates.

O Ministério das Relações Exteriores juntamente com o Cena Brasil Internacional desenvolveu um projeto de publicação de textos de 14 autores em diferentes línguas. A primeira tradução de Teatro Contemporâneo Brasileiro, em espanhol, foi lançada no 14º Festival Ibero-Americano de Bogotá (2014) e acompanhada por um ciclo de leitura das peças em teatros, escolas e universidades. Em 2015, o livro foi traduzido para o francês e esteve na Bienal do Livro em Paris, e em 2016 serão publicadas as traduções em italiano e em inglês.

As iniciativas de publicação possibilitam que a nossa dramaturgia seja conhecida e encenada por companhias internacionais e são  frequentemente associadas a leituras, conversas com os autores e discussões sobre a dramaturgia contemporânea brasileira como o evento Vermelho Como Brasas: Vozes Contemporâneas do Brasil/Red Like Embers: Contemporary Voices From Brazil. Resultado de uma parceria da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) com o Theatre503 de Londres, o evento promoveu leituras, discussões e a encenação de textos.

Acaba de ser publicada uma edição especial da revista Theatre da Yale University com textos dos dramaturgos Jo Bilac, Newton Moreno, Dib Carneiro e Diogo Liberano acompanhados, cada um, por um artigo de um estudioso.

Também no Brasil diferentes autores tem sido publicados e a coleção Aplauso foi responsável por muitos deles. A iniciativa de publicar a dramaturgia brasileira continua – este ano a editora Giostri publicou peças de Dionisio Neto, no início de 2016 publicará uma coletânea de autores cariocas; a Tusp publicará peças da autora Michelle Ferreira e, agora em outubro, a editora Oito e Meio publicou Galápagos de Renata Mizrahi.

Graças a cada um destes eventos, a cada uma destas publicações, a dramaturgia brasileira tem se tornado cada vez mais conhecida e accessível a diferentes artistas e realizadores, tanto no Brasil quanto em outros países. Que assim seja. Cada vez mais!

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