Cotas pra que te quero

1 junho 2016

Ao sondar a atriz e poeta Bruna Lombardi para integrar o governo Temer, a senadora Martha Suplicy com certeza jogou uma casca de banana em direção à presidente afastada. E ao repetir o convite a Daniela Mercury e Marilia Gabriela descascou todo o cacho. Por certo buscava uma imagem – e imagem vale mil palavras : todos iriam cotejar a elegância flamejante das três com o figurino verde oliva-goiás-velho da senadora Katia Abreu em sua posse como ministra, em 2015. A vestimenta trazia ainda o detalhe intrigante de dois botões enormes vermelhos, à semelhança de uma comenda, assim como um cintinho na mesma cor.

Dias depois, a presidente afastada lancetou que o ministério de seu ex-vice não tinha nem mulheres nem negros. E mais algumas horas depois espetou que era uma equipe de velhos, ricos e brancos. Ela certamente não pensou em Jacques Passivo Wagner ao fazer tal pronuciamento à Nação de menos 170 bilhões em caixa.

A ideia de cotas tomou conta do tempo livre da presidente afastada. Não percebeu a maldade perpetrada por Martha Suplicy, essa ingrata, em seus convites lançados ao mar. Bruna Lombardi, caso aceitasse, não cumpriria apenas a vaga de mulher, mas também de atriz, poeta, cineasta, voz maviosa e olhos verdes. Um nome, cinco cotas! (Ainda não houve quem cobrasse a presença de voz delicada na Esplanada; talvez esse sindicato desatento esteja satisfeito com o tom de Henrique Meirelles).

Martha então mirou Marilia Gabriela. De novo a esperta senadora pensou em deixar em outros maus lençois de fios petistas a presidente afastada. Seriam quantas cotas a serem preenchidas com aquele anjo loiro? Mulher, atriz, cantora amadora, olhos azuis de enlouquecer e 1,80 m de altura. Mulherão. Sim, os baixinhos já conseguiram muitos cargos. De novo, cinco cotas numa tacada. Muito bom, Martha.

Gabi não quis, o que é uma pena. Sua elegância poderia servir como inspiração a Katia Abreu, Mirian Belchior e Ricardo Berzoini.

A sondagem então se estendeu a Daniela Mercury. São várias as intepretações e omissões sobre esse convite à intérprete. Mulher, cantora, gay – são três coisas óbvias e estampadas em Caras a cada duas edições. Em todo o caso, três cotas preenchidas. E que cotas. Jean Willys teria de segurar seus perdigotos quando falasse sobre o ministério. Bolsonaro arrumaria mais um motivo para estar chateado – e sempre é bom ver o deputado de cabelo em pé: ele não não sabe dançar axé music ou a dança da garrafa. Porém o golpe de mestre – mestra, desculpe! – da senadora Suplicy foi o de perceber que Daniela Mercury preencheria a cota dos cabelos escuros e cacheados. A presidente afastada teria de engolir sua crítica de que se formou um ministério de velhos – leia-se: cabelos brancos e ralos. Por fim Temer economizaria na festa de final de ano com um show gratuito.

Pensou-se é certo no nome de Caetano Veloso. Principalmente por seu lado “eu sou neguinha” e “Leãozinho”. Ele defenderia o ministério diante de várias reinvindicações. Mas tudo foi fogo de palha (com todo o respeito) e a ideia, deixada de lado. 

De repente alguém colocou na mesa o nome de Maria Silvia Marques. Uau. A ela seria dada a incumbência de administrar um dos maiores orçamentos da União. Uau. Isso sim seriam várias cotas. Mulher, controlada nos gastos, simpática, competente administradora pública e privada, sabedora da diferença entre faturamento e lucro (ah, Dilma), dos tiques do Eduardo Paes e da tabuada do oito. Não se é possível agradar a todos e percebe-se uma movimentação estridente entre os números 1 e 3 que não se sentem representados na tabuada do ministério. Ah, vá lá.

 

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