Aquarius, teu nome é Solaris

1 setembro 2016

Ali pelo final da ditadura militar, havia a suspeita de que existiam uns tipos dependentes da censura. Precisavam que suas obras (vá lá!) tivessem trechos cortados para logo viver o papel de vítimas da falta de liberdade, do autoritarismo etc. O fato dava a eles pontos para a entrada no paraíso (um sítio em Atibaia, talvez) e notícia nos jornais. Assim, ganhavam a solidariedade indistinta de todos os opositores do regime.

Os funcionários da censura em geral eram antas rematadas, desinformadas, um espelho do governo central. Desconfio no entanto que alguns eram malandros. Porque ao censurar apenas trechos das obras, liberando-as para circulação, deixavam o público envergonhado diante de certas calamidades artísticas. Democracia é isso: lá tínhamos nós de defender aquela baboseira em nome da liberdade. Melhor se a plateia fosse poupada daquele desastre.

Terminada a ditadura, em 1985, de dentro das gavetas da censura não saltou uma única obra prima. (O velho Sarney de guerra faria a patacoada de proibir a exibição de Je vous salue, Marie, e lá fomos nós defender aquela bobagem sem graça de Godard). Os melhores trabalhos haviam chegado ao público, mesmo se vitimados por um talho ou outro. Claro que sempre haverá exceções na frase anterior.

Os profissionais da censura, desmobilizados pela Constituição de 1988, podem mudar de pele, mas não desaparecem. Podem até mudar de meios, mas o fim é a publicidade insana. Para seu produto. Os tempos interinos, ora em voga, mostram alguns exemplos de construção de notoriedade nas costas do processo politico.  Outro dia a bela e esperta atriz Leticia Sabatella foi vítima de um grupo de manifestantes pró-impeachment. Ouviu lá uns impropérios deseducados. O detalhe é que ela vestia uma camiseta a favor de Dilma e foi ao encontro de um grupo adversário. Seria como se eu, todo pampeiro, com a camisa do Flamengo, entrasse em meio à torcida do Botofago. Por certo minha mãe seria lembrada. E com razão: se eu provoco, eu ouço.

Agora é a vez do filme Aquarius, do diretor Mendonça Filho. Saiu do ministério da Justiça com a indicação para maiores de 18 anos. Dias atrás, no Festival de Cannes, o elenco abriu uma faixa em protesto contra o governo Temer. Bastou para os SS digitais tratar a produção como obra-prima, embora tenha deixado o festival sem um mísero prêmio. Falam agora em censura. Óbvio não é censura.

Isso se chama “publicidade gratuita”. O governo interino deu régua e compasso a uma campanha sem custos. Várias centenas de linhas e minutos na mídia, em nome de um suposto cerceamento, de novo irão aumentar a notoriedade do filme. É uma maneira barata de propagandear um produto artístico. Como já aconteceu com outras produções recentes, basta se fazer uma exibição para a presidente afastada – e, filme e presidente, receberão solidariedade irrestrita. Muitos likes e compartilhamentos. E aumento de receita na bilheteria do filme. Mais do que o número de adolescentes que iriam sair de casa para assistir Aquarius no cinema.  

Os tempos interinos, assim como o período ditatorial, produzem celebridades e obras de ocasião. É da natureza humana se aproveitar das situações. De Alexandre Frota a José de Abreu, de Roger a Lobão, o ocaso petista (estrela vermelha teu nome é Solaris) serve de boia e resgate a diversos tipos de náufragos. Rende entrevistas em talk shows, simpatias, pratos de comida e um selfie com Dilma. No fundo uma mão lava a outra. A coisa deixou de ser ideológica para ser lucrativa: assim como houve humorista que casou com a piada, temos agora humorista que não faz piada, mas discurso.

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