Apertem os cintos, o espetáculo vai começar

19 outubro 2016
(Créditos: Maria Júlia Lledó)

 

Foi depois do almoço. Não tinha aula no período da tarde e a namorada do meu irmão mais velho me convidou para assistir a uma peça no Teatro Escola Parque, pertinho da casa dos meus pais, na Asa Sul (Brasília-DF). O cartaz com o nome do tal "espetáculo" - que diacho seria aquilo? - me deu um frio na barriga: Pluft, O Fantasminha. Eu tinha apenas sete anos e não conhecia outro teatro que não fosse o do meu colégio. Um terreno seguro, onde eu mesma já havia interpretado o papel de Lua em uma fábula cujo nome ficou registrado em caneta Bic azul atrás de uma fotografia que até hoje minha mãe procura. 

Mas aquilo que estava por vir era algo completamente novo para mim. 

Primeiro, compramos dois pacotes de jujubas. Mas o doce não me tranquilizou. Pelo contrário, acelerou meus batimentos cardíacos. Eu nem sabia o que era estar ansiosa, salvo nos dias que antecediam meu aniversário e, de certo, haveria bolo Floresta Negra na escola. 

A primeira campainha tocou.

Passado o intervalo de quatro balas de goma, a campainha tocou duas vezes. Pronto. Devemos evacuar a área. Fogoooooooooooo!!! "Não, Juju. Está tudo bem. É só o aviso de que a peça já já vai começar." Ah... Dois goles (e um balde) de água fria depois, a calmaria.

Até a campainha tocar desesperadamente por uma, duas, três vezes! As luzes se apagaram e me veio uma dor de barriga. Minha mão suava...

Fechei os olhos com medo do tal fantasma que iria com certeza puxar o meu pé. Só o meu, porque ele saberia quem era a mais medrosa daquele teatro. "Vai começar". Sussurrava aquela que só podia ser meu carrasco por me entregar tão pequena e indefesa para o mundo das assombrações. Só que além do medo, a curiosidade também me puxava pelo pé. E aquela menina de sete anos de idade resolveu abrir os olhos e ver que raios estava acontecendo naquele tablado. 

Refletores por todos os lados iluminavam o palco de azul, amarelo, azul... E uma fumaça branca invadia tudo e todos que estavam à minha volta. Era mágico. 

Pluft, o Fantasminha foi escrito pela dramaturga Maria Clara Machado em 1955 e conta a história do rapto de uma menina - que só podia ser EU ou uma tal de Maribel - pelo malvado pirata Perna-de-Pau. Escondida no sótão de uma velha casa, a menina conhece uma família de fantasmas. Um deles se chama Pluft, morre de medo de gente, mas acaba de tornando amigo da Maribel. Juro que o final é feliz e nada assustador.

Também confesso que muitas partes dessa aventura fugiram de mala e cuia da minha memória. Mais a sensação de ter descoberto que era possível entrar num mundo de fantasias, depois de três campainhas e algumas jujubas, nunca me abandonou. 

Aracelle - acho que era esse o nome da namoradinha do meu irmão que me levou ao teatro - muito obrigada por segurar minha mão quando eu tive medo do fantasminha. Obrigada também por ter soltado a minha mão para que eu pudesse voar junto com os personagens. 

Até hoje, eu compro um pacote de jujubas, fecho os olhos e aguardo o som das três campainhas. Prontos? 

Vamos voar!

 

Cena da primeira montagem de Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, no Teatro Tablado (RJ) em 1955
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