A tragédia grega e o corpo nu em "Tragédie"

23 setembro 2015

Tragédia - do termo grego tragos, (bode) e ᾠδή, odé, (canto) combinadas na palavra tragosoiodé, "canções dos bodes". Para se cumprir com a tragédia, oferece-se um animal em sacrifico à Dioniso, o Deus do Teatro. Na raiz do rito grego, o animal sacrificado é o bode e seu o canto é o morte. Na montagem do diretor diretor francês Olivier Dubois, Tragédie do Balê du Nord, apresentada no Sesc Pinheiros nesta última terça (22/09), o bode é o homem que canta a morte de seu corpo dentro de um rito contemporâneo.

Dubois, canta a tragédia de corpos nus de vestes e símbolos, a fim de explorar a condição humana presa em linhas retas, normas, repetições maquínicas que nos hipnotizam, nos cegam e nos devoram. O corpo é, então, sacrificado em sua matriz primária arcaica no rito de culto à máquina.

No rito desta tragédia contemporânea, a corporeidade é estrangulada nos gestos, passando a atuar somente em linhas duras e retas nas coreografias que se desenvolvem. Assim nascem seres quadrados com pontas que assassinam as linhas sinuosas da Vida que se manifesta em expressão humana. 

O pathos (paixão) vira patologia. O medo do outro que persegue as ruas. A paranóia. A esquizofrenia que pinta o quadro em manifestações coreográficas de um corpo que se debate. Que não suporta a máquina e responde com impulsos arcaicos de um réptil que foge, mas segue perseguindo.

(Créditos: Fracois Stemmer)


O coro cai em cena parecendo expressar um interno que desfalece. Ele se arrasta amorfo em montante de corpos que escorrega pelo ralo de cena. Black Out. A máquina retorna no rito. Seu ritmo é vigoroso, latente, no toque do corpo vivo de cada um dos interpretes, como num grande coro trágico que se entrega em oferenda ao público, para cumprir a tragédia.

Eles sacam de seu demônios, e na soltura dos bichos, nos laços que os cercam, o coro é lançado à beira da loucura que diante do precipício transcende voo e celebra festivo, selvagem, orgiástico. Catarse.

Teria então o corpo passado por uma purificação da alma através de uma descarga emocional provocada pelo drama? Teria então expurgado de si o que lhe é estranho a sua essência ou à natureza e que, por isso, o corrompe? Ou ainda assim, estaria novamente fadado às linhas retas que ainda se manifestam mesmo na estruturas do sexo como apresentou Dubois, em composições que estão além do estético coreográfico?

Se as reflexões ressoam, o espírito agradece aos tragos sacrificados no rito que deu corpo e potência de uma tragédia grega às vestes de um corpo nu contemporâneo.
 

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