A Pintura é sua própria recompensa

4 outubro 2016

Como poderíamos definir algo que, em si mesmo, é sua consumação? -- consumação enquanto ato acabado, perfeito, que se faz presente não como término ou cessação deste ato. Algo que ocorre, daí a citação ao presente, como experiência e que levamos adiante como propósito, para tornar-­- se futuro e que ao lembrarmos se tornará passado constituinte do que somos. É essa experiência, com seu caráter individual e autossuficiente2, que remete ao todo onde estamos e onde também nos reconhecemos.

O reconhecer (conhecer de novo) aquilo que somos se faz através das lembranças de aspectos banais, comuns: as fotos do álbum de casamento que mostramos aos amigos, a cerveja compartilhada com o pai conversando amenidades, a infância que retorna ao circularmos num determinado veículo, os medos de uma maternidade arriscada, um tratamento de saúde que lembra o quanto somos frágeis, o cheiro dos corpos após o sexo. Experiências que falam a respeito do que somos e que se consumam em si mesmas.

Ah, sim, mas falaríamos de pintura.

Não seriam essas experiências vindas do cotidiano, do trivial, que conteriam uma beleza estranha e uma satisfação pessoal advindas de sua consumação? E como transforma-­‐-­‐-­‐las em algo palpável, já que também nos reconhecemos naquilo que fazemos?

As paisagens que nos parecem familiares mas que carregam um grau de incerteza capazes de disparar lembranças comuns estão nas pinturas de Elisa Bueno; assim como a força e o ímpeto das obras de Renata Pelegrini ao retratar o que não é visível em lugares reais, mas que sentimos como um espírito do lugar. Ou tanto quanto as cenas de Vera Toledo que ganham corpo e espírito em pinturas como "varredor de rua" ou "Primavera" onde o tempo presente se estabelece mais pela construção das figuras através da cor do que por seu significado. Talvez como faz Helena Carvalhosa e sua pintura vigorosa e dada a incompletudes , quase como se os escritos de Manoel de Barros fossem visualizados.

O fazer pintura, o ato em si, carrega consigo uma sinceridade ou honestidade de sentimentos e sensações em tudo semelhantes àquelas situações banais descritas acima mas que, da mesma maneira, adquirirão à posteriori sua importância. Penso que isto é válido para qualquer linguagem artística. Tanto a fortuna quanto a desgraça da pintura, porém, residem em sua longa história paralela ao que somos. Talvez por isso seja tão difícil entendê -- la ou entender a necessidade de quem a faz. Mas também não é difícil explicar o ódio ou o amor para quem não o sente?

Comentários
Escola Entrópica no Instituto Tomie Ohtake Museu de Arte Moderna de São Paulo