A dor da interrupção da gravidez

23 maio 2016

Trilha da coluna: Nine-Month Blues | Peggy Seeger*

Henry Ford Hospital / La cama volando (1932), Frida Kahlo
Henry Ford Hospital / La cama volando (1932), Frida Kahlo

 

Frida Kahlo abortou. Foi um aborto espontâneo que deixou traumas psicológicos difíceis de curar. São várias as obras da artista em que ela se retrata chorando a dor de um filho perdido. Em Frida y el aborto (1932), a mexicana se desenha com um bebê no ventre: um cordão umbilical amarra o feto já desenvolvido à perna da mãe; na outra perna, sangue escorre e infiltra na terra – “do pó viemos, ao pó voltaremos”. Lágrimas pesadas decoram o rosto da mãe sem filho. Nada mais triste do que sonhar com uma prole que não vem, uma tristeza tão grande quanto ser mãe sem querer ser.

 

Frida y el aborto (1932), Frida Kahlo

 

A artista britânica Tracey Emin também abortou. Foram dois abortamentos voluntários que ela realizou na década de 1990 – um muito mal-feito, que acabou provocando sua internação. Em Abortion Watercolors (1997), Emin também mostra dor. Aquarelas sensíveis e delicadas dividem espaço com o vermelho sanguinário, frases de culpa e uma tristeza latente difícil de engolir. “Eu queria ter te amado”, diz um dos escritos, referindo-se ao feto expulso. “Terrivelmente errado”, diz outro. Apesar da culpa, Emin abortou mais de uma vez.

Aborto é assunto triste. Não conheço nenhuma mulher que queira fazer um abortamento, mas sei de várias que fizeram. O procedimento é doloroso, invasivo, traumático, silencioso. Não há ninguém, em sã consciência, que tenha entre as opções de métodos contraceptivos o aborto como preferência, até porque aborto não é método contraceptivo. Mulheres não se descuidam acreditando que depois é só abortar e tudo bem. Não é assim que as coisas funcionam, apesar dos diversos argumentos falhos que insistem nisso. Mesmo as que desejam muito abortar não o fazem com a consciência tranquila: a culpa, a dor, o trauma são grandes. Mas mesmo assim elas abortam, porque o desespero de ser mãe é maior em alguns casos.

 

Terribly wrong (1997), Tracey Emin

 

Nem toda mulher quer ser mãe e precisamos entender isso. A “vocação sublime da maternidade” foi uma expectativa que a sociedade criou sobre a fêmea, mas que não representa a opinião de todas as mulheres do mundo. Gravidez não é responsabilidade só da mulher e não deve, de forma alguma, ser um “castigo”. Digo isso porque na sessão plenária do Senado que discutiu aborto há algumas semanas, um médico obstetra (coitadas das pacientes dele) disse ser contra o aborto porque a mulher que gosta de sair e se divertir à noite tem que arcar com as consequências de seus atos. Gostaria de responder bem alto: não temos, não, querido! 

Não há nada de errado com o fato de eu sair à noite, beber e voltar pra casa com o sol raiando. Eu posso sair e posso transar com quem quiser. Eu tomo meus cuidados, sempre tomei, mas os cuidados masculinos também são necessários e eles não se importam com isso. E se um acidente acontece, por que diabos só a mulher tem que arcar com essa gravidez sozinha? E o cara que estava lá na hora? Esse cara, só por ser homem, nem aparece nos artigos do Código Penal que criminalizam aborto e ainda é perdoado pela sociedade por sumir no mundo e não dar assistência ao filho. “Coitado… ele não estava preparado para ser pai”, dizem alguns. E a mãe que também não está preparada para assumir a maternidade? À ela, o castigo de abdicar da própria liberdade.

Série Abortion Watercolors (1997), Tracey Emin

 

O descuido de uma gravidez indesejada não é só das mulheres, não é mesmo? É necessária uma participação masculina essencial nessa história. E vamos ser francas? No “descuido”, o homem tem muita culpa. Quantas vezes não tive que interromper uma transa para explicar e insistir na camisinha que os caras sempre querem “deixar para lá”. Ao longo de dez anos de vida sexual ativa, só um cara colocou a camisinha antes mesmo de eu pedir. Que bom seria se todos os homens fossem assim (fica a dica, rapazes!).

Acidentes acontecem, não sejamos hipócritas. Por mais que existam diversos métodos contraceptivos, gravidezes indesejadas acontecem. Ninguém quer abortar, mas eles acontecem. Uma a cada cinco mulheres já realizou pelo menos um aborto na vida. E essas mulheres são, em sua maioria, casadas, com filho e religiosas. Como já disse Dráuzio Varela, “o aborto já é legalizado no Brasil; proibir é punir quem não tem dinheiro”. Quem pode, vai na clínica clandestina que, apesar do nome tenebroso, é super equipada, organizada, humanizada. Quem não tem grana, enfia agulha de tricô no útero, correndo o risco de morrer ou de deixar o bebê com sequelas. Aborto não é só uma questão de gênero, é questão de classe e de raça. As que mais sofrem com a criminalização são as mulheres pobres e negras. 

 

Série Abortion Watercolors (1997), Tracey Emin

 

Tenho certeza que nenhuma mulher desejou o aborto antes de fazer um, nenhuma delas se apoiou nessa possibilidade como um método contraceptivo. Mas quando vem a gravidez e o sentimento que a acompanha é de desespero e não de felicidade por gerar um filho, impor essa gravidez à mulher é tortura. Tortura maior é a perseguição do Estado, que sentencia essa vítima a anos de prisão enquanto o pai continua solto. Enquanto a mulher pede assistência médica, nossa legislação a manda para a cadeia, desestrutura a família que ficou do lado de fora e condena pelo crime de liberdade sobre o próprio corpo. 

O que as experiências de Frida e Emin têm em comum é a dor do aborto. Espontâneo ou voluntário, a dor é a mesma. A mulher que passa por um procedimento desses já tem traumas suficientes para tratar a partir de então. Privar essa mulher de acesso a um atendimento médico adequado e sentenciá-la a prisão é perverso. Aos integrantes do movimento pró-vida, dois questionamentos: a mulher que não quer ser mãe, vai abortar de qualquer jeito; a vida dela também não tem valor? E o pai, onde entra nessa história de condenações?

*Esta música foi uma das primeiras pró-aborto que fizeram sucesso nos Estados Unidos. Não há link disponível no Youtube e só uns trechos estão disponíveis na internet. Felizmente a encontrei no Spotify.

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