A difícil arte de vestir sua existência

3 abril 2017
O modus operandi e a maneira ardilosa como age são combustíveis para a nova montagem de "O Assalto", com  Fábio Santarelli e Rodrigo Caetano, sob direção de Gustavo Trestini


Num escritório asséptico de uma grande corporação, Vitor mastiga suas horas extras com um pornô no computador e um cigarro na mão. Quando é surpreendido pelo faxineiro Hugo, despreza as planilhas e gráficos que lhe esperavam noite adentro para regurgitar toda insatisfação, solidão e nojo por sua existência na empresa onde trabalham.

Separados pela classe social, educação formal, cargos e sonhos, Vitor e Hugo são duas faces da mesma moeda. Assim mesmo, no maior clichê. Mas a obviedade que habita as diferenças entre o bancário e o faxineiro param por aí. O que vem, em seguida, surpreende e envolve o público do começo ao fim.   

"Está na hora de arrombarmos estas portas que encarceram cada um na sua opinião", Gustavo Trestini, diretor

Texto de 1968, do dramaturgo José Vicente, expoente da sua geração e figura história do teatro brasileiro, "O Assalto" desafio o tempo em que foi escrito e nos coloca na mesma posição de vítimas e algozes da nossa existência. 

 

Com a palavra, o diretor Gustavo Trestini:

"O Assalto" traz temas atemporais, tornando o texto de José Vicente tão próximo da nossa realidade. Houve alguma adaptação a elementos contemporâneos? Se houve, quais foram estas adaptações?
G.T. -  É importante saber que José Vicente foi seminarista e que estudou filosofia. Aos 22 anos, ele escreveu esta peça. Não é à toa tantas citações a Foucault. A peça tem uma estrutura, uma ideia existencialista, acima de tudo, por isso que ela é atemporal. A gente fez as adaptações, mas preferimos dizer que foi uma "tradução", porque a gente não alterou absolutamente nada do texto só acrescentos os gadgets e essa parte tecnológica que está no nosso cotidiano. Por exemplo, no texto original, o Zé falava do despertador: esse aparelhinho chamado paulistano que nos joga da cama às seis da manhã. Neste lugar colocamos o smartphone. O objeto que ele descreve nada mais é que um conceito daquilo que é exterior a gente; algo que introjetamos e que passa a dominar nossa vida como uma ideologia. Tenho certeza que ele faria a mesma coisa hoje, porque estas ferramentas podem nos escravizar, nos tornando cada vez mais solitários e controlado por este sistema corporativo no qual estes dois personagens (Vitor e Hugo) estão envolvidos. 

O espetáculo está em cartaz no Espaço da Cia da Revista, teatro independente que explora um olhar crítico e irreverente sobre seu tempo, cuja presença da música é um importante elemento narrativo. De que forma, a peça dialoga com as proposta da Cia da Revista?
G.T. - Ela dialoga com o trabalho da Cia da Revista na medida em que a gente, assim como eles, se apropria de um texto clássico dentro da dramaturgia, seja ela mundial, caso de "Um Dez Cem Mil Inimigos do Povo", ou da dramaturgia brasileira, como "Ópera do Malandro", e tentamos estabelecer um diálogo contemporâneo com esta dramaturgia. Ou seja, nos encontramos neste lugar de dar uma coloração contemporânea a um texto clássico de forma a estabelecer um diálogo com a realidade, mas, esteticamente, nossos caminhos são bem diferentes.  

Que provocação (provocações) a peça faz ao público? 
G.T. - Gosto de dizer que a principal provocação da peça é nos fazer entrar no conflito. Sinto que vivemos num momento onde o conflito, de maneira geral, é tido como algo não aceitável. Temos que pensar da mesma forma e isso acaba com esse trato com o diferente e a reflexão. Por isso, Vitor propõe ao tranca a porta do escritório e falar "agora somos nós e vamos até a última consequência de quem somos nós dentro deste espaço". A ideia é a progressão destes dois personagens: um  tem um olhar sobre o outro. O Vitor acha que o Hugo é o messias, porque ele está dentro de um sistema capitalista, burguês e vê no faxineiro nenhum compromisso com isso tudo. Ou seja, ele vê no Hugo uma liberdade. Já o Hugo olha o Vitor como um playboy que tem tudo o que ele gostaria de ter. A medida que eles se embatem neste conflito há uma destruição e recomposição de o que cada um é tanto para si quanto para o outro. E os espectadores vão acompanhando estas mudanças. A ideia que o Zé Vicente usa como metáfora na peça é assaltar o outro: tirar ele de dentro de si para compreender quem é essa pessoa. Está na hora de arrombarmos estas portas que encarceram cada um na sua opinião e deixar estes conflitos transformarem as pessoas para que se possa criar uma terceira coisa, algo novo. 

SERVIÇO 
"O Assalto"
Quando: Até 27/04, terças, quartas e quintas, às 21h
Local: Espaço Cia da Revista, Alameda Nothmann, 1135, Santa Cecília, São Paulo-SP
Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00
Comentários
Escola Entrópica no Instituto Tomie Ohtake Museu de Arte Moderna de São Paulo