A cena teatral criativa da Grande Maçã

8 abril 2015
        Cena do espetáculo "The Rite of Spring", de Basil Twist, em Nova York (EUA). 
        Foto: Divulgação

 

Estou em Nova York há cinco meses, quase voltando. Vi muitas coisas, vi espetáculos de dança, teatro, dança-teatro, performances… Hoje vou falar de dois espetáculos apresentados em outubro de 2014 e que dificilmente chegariam a São Paulo, acima de tudo por envolverem equipes grandes como a Orchestra of St. Luke’s em The Rite of Spring de Basil Twist, ou por serem grandiosamente especiais como Paper Music, uma das mais recentes colaborações entre o artista William Kentridge e seu parceiro, o músico sul-africano Philip Miller.

The Rite of Spring fez parte de um festival chamado White Light e estreou no Rose Theatre. Eu não conhecia nem o Festival, que em 2014 teve sua 5ª edição, e nem esse teatro de 1.200 lugares, um dos 3 teatros do JALC-Jazz at Lincoln Center, que faz parte do The Lincoln Center for the Performing Arts. Ele fica no Time Warner Center, um prédio de duas torres, 55 andares, e que, em 2006, alcançou o maior valor imobiliário da cidade de NY até então - US$ 1.100 bilhão! O prédio é um shopping center com lojas de alto padrão, escritórios, restaurantes de alta gastronomia, o hotel Mandarin Oriental, o Whole Foods - um supermercado dedicado a produtos organicos, com tudo de muito boa qualidade (eu adoro o Whole Foods, frequentei muito o da Greenwich Street) e… o JALC. 

Muito bem, Basil Twist é um bonequeiro que chegou a NY há cerca de 20 anos e, com seu talento, se afirmou como um designer audacioso, diretor e performer. Além de suas criações, ele tem colaborado em importantes produções da Broadway (fez os bonecos para A Família Adams e alguns para A Bela e a Fera) e dança (Pilobolus/2008; Cinderella/Balet Nacional da Holanda/2012), entre várias outras. A primeira vez que vi um trabalho de Basil Twist foi em Peter and Wendy (1996) de Lee Breuer, criador com quem Twist tem uma colaboração de longa data e com quem, mais recentemente, fez Um Bonde Chamado Desejo na Comédie Française (2011).

The Rite of Spring, a tão conhecida música de Stravinsky para a coreografia de Nijinsky (ou vice-versa), foi interpretada pela Orchestra of St. Luke’s e Basil Twist criou um universo de abstrações feitas grandemente por tecidos que dançavam pelo espaço e apenas um personagem que ia conduzindo o público por esse ballet sem bailarinos. O que mais me chamou a atenção nesse espetáculo foi ver um artista inicialmente vinculado ao teatro experimental - esse, inclusive, foi o motivo que me levou a ver The Rite of Spring, acompanhar o desenvolvimento de um artista que conheci anos atrás - agora trabalhando em uma produção grande como essa. Infelizmente foi uma aventura sem grandes riscos, um exercício virtuosístico, uma linda realização, grande como o Time Warner Center, mas só.

Basil Twist é hoje Diretor Artístico do Programa de Música e Bonecos do HERE Art Center, uma importante iniciativa pois é um dos poucos programas que investe em espetáculos contemporâneos de boneco para adultos. Pensando no HERE e em The Rite of Spring, talvez Twist esteja se dividindo entre ganhar dinheiro e projeção e trabalhos outros de pesquisa de linguagem. Da próxima vez quero ver esses outros, pois os que já tive a oportunidade de ver são muito bons.

Paper Music (Música de Papel) é um encontro lindo de ver. O encontro entre Philip Miller e William Kentridge, um encontro entre música, performance e video. O palco do Zankel Hall do Carnegie Hall foi invadido por pássaros, peixes, enciclopédias do século XVII, as pragas do Exodus, uma praia repleta de vacas imaginárias, entre outras fantaias lindas, todas desenhadas em carvão pelo artista William Kentridge e transformadas em 16 animações.

Kentridge é único: ele é filósofo, cineasta, bonequeiro, ator, um mago do video, além de diretor de teatro e ópera. Morris e ele são parceiros desde 1993 e é dele a música que acompanha as 16 animações. Para a apresentação no Carnegie Hall, Philip Miller reescreveu algumas das músicas e escreveu novas para a pianista Idith Meshulam e dois incríveis cantores sul-africanos, Ana Masina e Joanne Dudley interpretarem. Masina é cantora de ópera, gospel, jazz e pop e usou todos os seus recursos nessa apresentação. Dudley é uma performer que vimos cantando e até tocando ukelele! Pura poesia, puro exercício de talento, criatividade e parceria. E isso tudo para fazerem uma única apresentação.

Nova York está cheia de novos espaços e de espaços que se afirmaram ao longo dos últimos 10, 20 anos. Espaços grandes, espaços pequenos, espaços em novas vizinhanças, espaços em áreas já mais conhecidas, cada um com um perfil e todos com uma programação incrível. Depois conto mais.

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