40 anos de Annie Hall

3 maio 2017

Antes de abril de 1977, Woody Allen tinha dois filmes como roteirista (The Laughmaker – 1962, What’s New Pussycat – 1956) numa escalada que somaria mais dez produções – entre roteiros, atuação e direção -, até chegar em Noivo Neurótico, noiva nervosa (Annie Hall), filme destoante dessa sequência marcada por comédias.

Embora sem dar pistas diretas, Woody Allen tinha ambições em expandir seu cinema. Suas influências mais conhecidas: o comediante Bob Hope e o cineasta Ingmar Bergman, representam tal confluência entre drama e humor, diálogo intermitente em todos seus filmes.

 

Bastidores do filme "Annie Hall", de Woody Allen. (Créditos: Reprodução)

 

Inovando

Em um dos filmes mais bonitos da era anterior aos blockbusters norte-americanos, Woody Allen se conectou emocionalmente com o público num movimento sem volta. Além da inovação temática, apertou os botões dos recursos cinematográficos de modo a influenciar a publicidade e as comédias românticas produzidas a partir dele.

Histórias de casal nunca foram os mesmos depois dos quadros vazios (cenas filmadas sem personagens), dos pensamentos de Diane Keaton e Woody Allen – Annie e Alvy, que observavam a si mesmos, a tela dividida ao meio, planos esquematicamente pensados. Ferramentas do audiovisual experimentadas sobre um roteiro sólido escrito por Allen em parceria com Marshall Brickman, filmados pelo diretor de fotografia Gordon Willis. 

Além da força do casal, a atuação e o estilo de Diane Keaton refletiu como um espelho multiplicado em diversas atrizes. Driblava a escolha da figurinista e com a aprovação do diretor entrava em cena com suas próprias roupas, misturando peças masculinas com lenços e acessórios femininos.

A cena da lagosta (com os personagens tentando colocar lagostas vivas numa panela) foi a primeira a ser filmada e sinaliza outra qualidade da obra, a espontaneidade na atuação. Claro que era um clima favorecido pela intimidade entre Keaton e Allen (que já trabalharam em outros filmes e foram namorados por cinco anos), porém, este clique espontâneo entre os atores é desejo de qualquer diretor e foi trabalhado à exaustão.

No decorrer do filme houve várias refilmagens, cortes e substituições de cenas no processo de montagem, sem deixar de se preocupar com o desfecho. Que fim seria reservado ao casal tão problemático quanto adorável?

 
Bastidores do filme "Annie Hall", de Woody Allen. (Créditos: Reprodução)

 

Final feliz

Mesmo abordando a desconstrução de um casal, o filme tem um final feliz. Na perspectiva dramática é o happy end, mas de costas para o convencional. Em entrevista, Woody Allen disse ter batalhado muito com o final do filme, que havia muitas cenas e muitas ideias.

A decisão veio por tentativa e erro, costurado por uma conclusão freudiana, em referência ao criador da psicanálise, o qual é recorrente na obra de Allen, assim como outros pensadores, filósofos, comediantes e escritores.

Visto inicialmente como um erro terrível, uma perda de tempo, - pois ia na contramão do que Woody Allen vinha fazendo, e bem -, Annie Hall é icônico em sua cinematografia e na história do cinema, tanto pela teimosia do diretor que insistiu em se arriscar em uma produção inesperada, quanto pela indústria, que ganhou força reproduzindo incansavelmente o frescor e as crises daquele casal.

O ano seguinte ao seu lançamento resultou em outra sequência, a de prêmios e da construção da mítica de Woody Allen, Oscar e atrizes femininas. Enquanto o diretor é ausente na cerimônia do Oscar, suas protagonistas brilham com a estatueta em mãos. O caminho foi aberto com Keaton e Annie Hall, vencedor em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Atriz.

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