[COLUNA] Axé com Moisés Patrício

12 setembro 2016
Um dos trabalhos da série "Aceita", de Moisés Patrício, o primeiro convidado de Axé 

 

Axé é uma palavra de origem iorubá.

Iorubá, ioruba ou iorubano é uma etnia presente na Nigéria. 

No candomblé e na umbanda -- religiões de matriz africana --, axé significa força e poder.

Aqui, no site O Beijo, é nada muito que uma coluna jornalística dedicada à reflexão sobre a presença dos negros (e negras) nas artes visuais brasileiras.

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Nasce -- já que é sempre bom falar sobre como tudo começa -- da afirmação de negritude de quem a escreve. 

Passa -- segundo ponto da trajetória -- por exclamações e interrogações diversas, dentre elas:  "Nossa, mas não tem negro aqui! Por quê?". 

Termina -- é preciso para concluir -- na vontade de escrever sobre as dificuldades encontradas, potencialidades da poética negra e ações que pretendem transformar o cenário.

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ENTREVISTADO: Moisés Patrício

 

(Créditos: Reprodução/ Facebook)

 

SITE O BEIJO -- Quando você decidiu ser artista?

Moisés Patrício -- Desde os 9 anos, tenho contato com a Arte. Foi um caminho muito natural, porque de uma ponta a outra me senti amparado por pessoas que já estavam nesta área. Elas tiveram a preocupação de me instrumentalizar. Da assistência ao Juan José Balzi ao curso de Artes Visuais na USP, foi um pulo.

SITE O BEIJO -- Sua família te apoiou?

MP - Eles foram fundamentais, mesmo não entendendo muito do processo e do que era o universo das artes. Me ajudaram desde a pagar as passagens quanto  ir às exposições e aulas. Hoje, sou eu quem os ajudo, mas a parceria se mantém. 

SITE O BEIJO -- Você fala sobre as suas experiências no meio artístico para eles?

MP -- Falo, mas também entendo que há obstáculos, é um meio muito elitizado. É um grupo muito pequeno que discute e aborda as questões. Há um grupo enorme, a maioria, que não fica sabendo de nada.

"Meu papel é de abrir as portas. Conversar com os meus amigos, com quem está chegando. Tenho mantido este esforço, de mostrar como acessar estes ambientes e esta linguagem"

SITE O BEIJO -- Como foi a graduação na USP, você teve dificuldades para se manter no curso?

MP - O tempo inteiro, né? Não havia bibliografia para falar sobre a poética do negro. Os professores sempre tiveram muita dificuldade de apontar publicações que pudessem me ajudar. Parecia que primeiro teria que ir à Europa para depois me entender. 

SITE O BEIJO -- E no circuito, quais são os obstáculos?

MP - O circuito perpetua uma segregação intencional, que se relaciona à falta de diversidade da produção de artistas negros. Tem também a profissionalização, a dificuldade em ter uma carreira coerente sem hiatos. Na geração anterior, há muitos vácuos. Muitas vezes os artistas tiveram que parar para fazer outras coisas.

"A gente é diverso pra caramba e muitas questões que não são abordadas"

Desenvolver projetos que abracem a poética do negro, como disse, é outro obstáculo. Muitas vezes pedem que a gente se adeque ao que está aí hoje, a essa poética europeizada. E quando resolvem falar da poética do negro, é sempre da estética do faminto, da pobreza. 

 

 

SITE O BEIJO -- Falamos muito sobre os problemas, mas pouco sobre as potencialidades da poética negra ...

MP - De modo geral, o que tenho visto é a potência da performance. Com o corpo como base de criação, todo processo da poética é muito orgânico. O corpo parece um organismo vivo.

​"A potência da arte brasileira está entre o negro e o índio"

Eu e meus amigos passamos por um processo de desatrofiamento da criação da arte do corpo. A potência do nosso trabalho está em reivindicar alguma coisa, renascer. Vem de uma ideia de fragilidade, de um corpo desnorteado, mas na verdade, não é isso, há muita força. Conheço mais de 50 artistas produzindo. Mulheres e homem que têm feito coisas incríveis. 

SITE O BEIJO -- No encontro "Diálogos Ausentes - A presença do negro nas Artes Visuais", a artista Renata Felinto defendeu a criação de uma rede de apoio que facilitasse tanto o compartilhamento  quanto o debate. O que você acha da ideia?

MP - A "Presença Negra" (performance realizada em 2014 que consistia na visita de galerias por artistas negros e negras) foi o primeiro passo de construção de uma rede. Esta tem gente de fora do Brasil, antropólogo, jornalistas e o pessoal da revista O Menelick. Nos encontramos para debater questões relacionadas às galerias, mas também falar sobre assuntos relacionados aos ateliês. Temos pensado e escrito alguns textos e críticas, além de fazer um mapeamento.

Aos poucos, estamos nos reencontrando. Não queremos nos adaptar a modelos. Vamos nos construindo junto a outras redes que já existem há mais tempo, como a Geledés, da Suely Carneiro, e toda essa galera que está aí desde a década de 70.

 

 

// Artistas afrodescendentes indicados por Moisés Patrício:

- Paulo Nazareth

- Janaína Barros 

- Michelle Mattiuzzi

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